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A 'culpa do Zé' na morte de Dom Phillips e Bruno


Por Raimundo de Holanda

15/06/2022 19h26 — em
Bastidores da Política



 'Foi o Zé', uma das crônicas do escritor pernambucano  Nestor de H Cavalcanti marcou minha adolescência porque de sua leitura  aprendi a moderar minhas impressões e a evitar prejulgamentos. Esses fragmentos de memória daqueles tempos reapareceram após ler diversos artigos de articulistas do Uol, da  Folha e de O Globo sobre a tragédia que envolveu o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, mortos, queimados e esquartejados. “Bolsonaro querido dos criminosos...”, “ Governo parece aceitar a Amazônia sob domínio dos criminosos”, “Culpa do Bolsonaro”.

Acho Bolsonaro tão mal afamado quanto o Zé do conto de Nestor de Holanda Cavalcanti. Zé era uma pessoa ruim, como Bolsonaro, com a diferença de que nascera no dia de Finados.  Não era imorrivel, nem imortal, nem incomível, como o presidente, mas estava na boca de todo mundo. Tudo era o Zé, que encarnava o mal, embora nem sempre ele fosse o causador desse mal.    

Nestor conta que certo dia Pedrinho, um amigo de infância do Zé, apareceu baleado. O delegado o encontrou arquejando.  Aproximou – se dele e perguntou: “ Atiraram de tocaia?” Pedrinho confirmou: “pois é”. E morreu.  O coronel, que encarnava a figura do delegado, entendeu: ”foi o Zé”. 

Esse conto é instigante e leva a muitas reflexões sobre julgamentos que fazemos ao sabor de fortes emoções.

Bolsonaro pode ser omisso, mas responsabilizá-lo pelo assassinato do indigenista  Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips é um absurdo. Mostra como os jornalistas se tornaram parciais, permissivos e não se diferenciam de Bolsonaro ao  cultivarem  o ódio e, com seus comentários, contribuírem para a divisão do País.

Quando Bolsonaro diz que Dom Phillips e Bruno Pereira estavam em uma missão perigosa, está externando uma verdade.

Desde sua criação no Governo Fernando Henrique, o Vale do Javari tem sido invadido por  Ongs, seitas religiosas,  garimpeiros e, já naquela época, era uma rota para o tráfico de drogas. Pouco foi feito pelo governo brasileiro para mudar esse cenário nos últimos 30 anos.

Evidentemente que o afrouxamento promovido pelo governo Bolsonaro acentuou o problema, especialmente com o crescente aumento do número de garimpeiros e outros predadores do meio ambiente na região.

Mas se Bolsonaro é culpado, e os zés que governaram o País antes dele? O que fizeram ? Que é preciso fazer algo agora é fato. E urgente. Mas essa lenga-lenga, essas acusações mútuas, esse ódio, esse oportunismo de jornalistas que sequestraram a verdade factual - o resto para eles é fake news - não contribuem para nada. São apenas perigosos  jogos de palavras.

O que a Nação quer e deseja urgentemente é um debate civilizado sobre as fronteiras do Brasil na Região Norte, especialmente áreas onde predominam o tráfico de drogas, de animais e de riquezas da floresta.



Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.