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Carretas, motos e a tragédia envolvendo pai e filha em Manaus


Por Raimundo de Holanda

04/06/2022 19h55 — em
Bastidores da Política



Quando a chuva caiu na manhã deste sábado, ainda havia sangue no local onde Marivaldo Pereira e a estudante de direito Ane Karollyne (pai e filha) foram esmagados por uma carreta na noite anterior. O sinal mais dramático da tragédia foi levado pelas águas.

Os  corpos permaneceram no Instituto Médico Legal durante a madrugada, com a família confusa e traumatizada. Uma notícia dessas é cruel. E difícil processar.  Nem Marivaldo nem Ane voltarão para casa, nunca mais compartilharão sonhos, nunca mais se sentarão ao redor da mesa para a partilha do pão.

Nada vai apagar da memória dos familiares e amigos de Marivaldo Pereira e Ane Karollyne o momento em que a moto na qual trafegavam na Avenida das Torres foi atingida por uma carreta, que pelo horário do acidente, não deveria estar circulando.  Mas estava, como outros veículos de grande porte que trafegam a qualquer hora do dia sem nenhum controle ou restrição.

De outro lado, as motos estão tomando conta das ruas de Manaus. Velozes e econômicas, elas são pilotadas (não era o caso de Marivaldo) por amadores, que driblam os carros, sobem nas calçadas, entram na contramão.

A imperícia de alguns condutores é tão grande que eles sequer conseguem mostrar equilíbrio. Mas é a vida em uma cidade na qual a opção pelo carro – que já era um sonho irrealizável para muitos – foi trocada por um veículo mais barato e de menor consumo de combustível.

O boom nas vendas de motos  registrado nos últimos meses não é produto de uma economia que vai bem, mas do subemprego ou do desemprego e da necessidade premente de locomoção que o transporte público, falido, não dá conta.

Mas se a moto é um veículo mais acessível à maioria da população, seu uso está provocando um número maior de sequelados e de mortes. Isso precisa parar.

O meio para mudar essa dinâmica da morte não é dificultando a compra de motos, mas oferecendo transporte público de qualidade para os mais pobres. E há mais por fazer. Verticalizar o crescimento de  Manaus, que sempre pendeu para os lados e isso restringe o acesso a serviços de saúde, leva à agressão ao meio ambiente e produz miséria. Mudar isso depende muito da classe politica.

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Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.