Na investigação deflagrada no Amazonas sobre um suposto esquema de agiotagem, um aspecto chama atenção para além dos fatos que ainda serão apurados pela Justiça.
Entre as pessoas apontadas como vítimas estariam, segundo as informações divulgadas, servidores públicos e profissionais familiarizados com o funcionamento das instituições. A circunstância, por si só, desperta uma reflexão que vai além da esfera criminal.
Há uma ironia difícil de ignorar.
Justamente aqueles que conhecem a lei e, em muitos casos, convivem diariamente com sua aplicação, decidiram recorrer a um mercado que existe precisamente porque atua à margem dela. Não se trata de questionar a condição de vítima de quem possa ter sofrido extorsão ou violência, mas de reconhecer a evidente contradição presente nessa escolha.
É verdade que dificuldades financeiras podem atingir qualquer pessoa, independentemente da profissão ou da renda. A urgência, muitas vezes, reduz a capacidade de avaliar riscos e faz parecer atraente uma solução imediata.
Recorrer conscientemente a um sistema clandestino de crédito significa aceitar uma relação desprovida das garantias que o próprio ordenamento jurídico oferece às operações regulares.
Quando o conflito surge, revela-se um paradoxo quase inevitável.
Quem inicialmente abriu mão da proteção das regras legais passa a depender justamente do Estado para restaurar a ordem e fazer cessar práticas que jamais deveriam ter existido.
Não há incoerência em buscar a tutela da Justiça diante de um crime, mas há uma lição evidente sobre os riscos de confiar em relações construídas fora da legalidade.
O episódio, portanto, não recomenda apenas a repressão aos responsáveis por eventual agiotagem. Também evidencia a necessidade de fortalecer a prevenção, ampliar o acesso ao crédito formal e promover educação financeira permanente.
Afinal, mercados ilegais prosperam porque encontram quem os ofereça, mas também porque encontram quem, por necessidade ou conveniência, esteja disposto a procurá-los. Combater apenas uma dessas pontas significa enfrentar o problema pela metade.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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