Início Arte e Cultura The Town prefere o certo ao duvidoso e faz aposta no rap para se oxigenar
Arte e Cultura

The Town prefere o certo ao duvidoso e faz aposta no rap para se oxigenar

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A primeira edição do The Town, há dois anos, deixou a música em segundo plano. O Autódromo de Interlagos, em São Paulo, era um labirinto cheio de ativações de marcas.

Era presenteado com um show quem vencesse a multidão, as filas e a topografia subaproveitada da área. Os problemas não parecem ter assustado a direção, a mesma do Rock in Rio, que comemorou os ingressos esgotados e decidiu que, ao menos no plano musical, não é preciso mexer em time que está ganhando.

Mantendo-se na linha do pop sem riscos, o The Town deste ano, que começa na próxima sexta-feira, dia 6, transita entre shows que o público brasileiro já viu há pouco tempo e a nostalgia millennial na escalação de suas estrelas internacionais.

De um lado, há nomes unânimes cujas apresentações recentes no Brasil não parecem reduzir a chance de venda de ingressos --pelo contrário. É o caso de Mariah Carey, que lança seu primeiro álbum em sete anos em setembro, Lauryn Hill, que atualiza seu show com os filhos Zion e YG Marley, e da banda Green Day, dona de um dos melhores shows do Rock in Rio de 2022.

Do outro lado, há artistas de carreiras consolidadas e cujas aparições no Brasil há ao menos dois anos foram seguidas por meses fracos: Travis Scott, ainda na ressaca de "Utopia" depois da pouco inspirada mixtape coletiva "Jackboys 2", Camila Cabello, dona de uma tentativa aquém da proposta ousada com seu "C,XOXO", e Katy Perry, que tem no último disco, "143", o ponto mais baixo de sua carreira.

Se quiser evitar o álbum, a dona do sucesso "California Gurls" tem essa e muitas outras cartas na manga para um show que apela para a memória dos anos 2000. Esse é também o caso de Jessie J, Jason Derulo e CeeLo Green -todos com aparições erráticas entre singles e álbuns de menos impacto nos últimos dez anos. Quem fecha a lista da rádio saudade é o grupo Backstreet Boys.

Entre os chamados headliners, o festival fugiu dessa tônica apenas quando decidiu chamar Lionel Richie e Iggy Pop. Escolhas acertadas. Ambos passaram pelo Brasil há quase uma década. Richie deve enfileirar clássicos desde os tempos de Commodores sem perder um minuto de show. Já o padrinho do punk viu o tempo passar sem amortizar sua fúria. Aos 78 anos, ele vem com mais um novo show ao país.

Se a turma de fora parece bater ponto no Brasil, a turma daqui não saiu de cena. Há 18 artistas brasileiros que tocaram na primeira edição do festival paulistano, e a maior parte ocupa as principais linhas dos cartazes de anúncio. Mais do que isso: 12 deles tocaram tanto no The Town quanto no último Rock in Rio -goleada para fã-clubes; pague um e leve três para a organização.

Isso não é um problema para aqueles cuja produção atual pode refrescar a volta ao festival. Os rappers Matuê e Cabelinho, por exemplo, vêm de álbuns interessantes lançados há cerca de um ano. Ludmilla e Luísa Sonza, embora sigam na mesma turnê que apresentaram no The Town há dois anos, têm se lançado na carreira internacional -aquela com R&B, esta pelo mercado latino.

Outros vêm menos promissores. Gloria Groove é dona de um dos melhores shows do primeiro The Town, mas não manteve o entusiasmo criativo dos anos anteriores. Emplacou apenas um hit com seu ao vivo de pagode no ano passado. Carismática, Iza viu o álbum "Afrodhit", recebido sem grande alarde, ser engolido por polêmicas e pelos comerciais que ela fez. Pedro Sampaio deve destilar um set com seus vários sucessos de funk formulaicos, que empolgam quem só tem aquilo como repertório.

O funk segue presente, mas tímido --pouco avança nos diversos subgêneros do país. Mais uma vez escalado, MC Hariel não é o único artista do gênero capaz de se apresentar num palco de festival.

Ajuda também que o rap nacional tenha ganhado mais espaço nessa edição. A escolha é inteligente: o gênero representa grande parte da juventude brasileira, um público que deve renovar o evento no vácuo deixado por alguns festivais de rap. Mas a escolha também foi contida -repetir metade da lista do festival do ano retrasado destoa com a diversidade de rappers do país.

Além disso, nomes como Ajuliacosta e Ebony mereceriam apresentações solo. Ambas oxigenam o hip-hop brasileiro, assim como Duquesa, que ganhou seu merecido espaço no festival. Tz da Coronel e Kayblack, nomes fortes das ondas carioca e paulista do trap de massa, também podem entregar bons shows com seus mais recentes lançamentos.

O rock se sustenta nas mãos de poucos. Nomes como Capital Inicial, Tihuana e CPM22 são uma proposta que pode entediar. Eles ocupam um espaço que poderia servir a novidades do cenário brasileiro -bandas como Papangu, Deaf Kids e Crypta, por exemplo, trariam novos fãs para o festival. Mas a audiência deve estar garantida com o time internacional, que conta também com a nova formação dos Sex Pistols para salvar o dia.

O jazz vem menos empolgante do que no ano retrasado. Kamasi Washington e sua banda são o grande chamariz, embora o músico também seja habitué de palcos brasileiros. A música eletrônica sofre o maior baque. O palco New Dance Order, a seção de curadoria mais interessante da primeira edição do evento, virou uma vírgula na história, uma excêntrica torre que vai abrigar um DJ por noite --o desande com funk de arena de Victor Lou e GBR é o único destaque.

A curadoria do The Town segue tateando a música produzida abaixo da linha do Equador. O reggaetonero J Balvin foi uma escolha burocrática. Além de ter tocado algumas vezes no Brasil, não é um dos nomes fortes do momento. Já a vinda de Burna Boy empolga. Maior nome do afrobeats, o nigeriano é um dos principais artistas da África e tem chances de entregar um dos melhores shows do evento.

Essa lista, comparada à primeira edição, resultará em um festival um pouco menor, com menos shows e artistas. Na teoria, isso é bom para o evento, pois oferece ao público mais espaço e tempo entre uma apresentação e outra. A não ser que a presença de marcas seja mais importante ainda nesta edição. Por isso que, na prática, é cedo para dizer se a música estará no primeiro plano deste novo The Town.

COMO COMPRAR INGRESSOS

O The Town acontece nos dias 6, 7, 12, 13 e 14 de setembro. Os ingressos ainda estão à venda no site do evento, thetown.com.br. A entrada inteira custa R$ 975, e a meia sai por R$ 487,50. Cada ingresso dá direito a entrada em um dia.

QUEM VAI SE APRESENTAR

A escalação completa e os horários dos shows podem ser vistos no site do festival. Os headliners são Travis Scott (dia 6), Green Day (dia 7), Backstreet Boys (dia 12), Mariah Carey (dia 13) e Katy Perry (dia 14).

COMO CHEGAR AO FESTIVAL

A estação Autódromo da CPTM é a mais próxima do festival e a forma mais indicada para chegar ao Autódromo de Interlagos, já que haverá interdições no trânsito nas imediações do evento. Durante todos os dias de festival, aliás, o metrô e os trens de São Paulo vão operar por 24 horas para desembarque.

Os portões abrem às 14h e a entrada no Autódromo é permitida até a meia-noite. O festival fecha as portas às 2h, quando se encerram os shows dos headliners do evento.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?