Início Arte e Cultura Restaurado, 'A Mulher de Todos', com Helena Ignez, segue violento e sedutor
Arte e Cultura

Restaurado, 'A Mulher de Todos', com Helena Ignez, segue violento e sedutor

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Nós não gostamos de gente", diz Helena Ignez, repetindo Angela Carne e Osso, a inimiga número um dos homens. Ou seria o contrário? A frase da radical protagonista de "A Mulher de Todos", um dos principais filmes de Rogério Sganzerla, ao lado de "O Bandido da Luz Vermelha", é a primeira invocada por sua intérprete.

"Tem tanta gente terrível nessa extremíssima direita hoje que é um esforço para aceitá-las. É ainda mais duro para mim, pacifista, espiritualista, dizer isso. Mas é o medo que tenho de voltar aquele momento, pano de fundo de 'A Mulher de Todos', o último filme que fizemos em liberdade", diz Ignez, aos 85.

A atriz, um dos faróis do chamado cinema marginal, se refere a 1969, auge da repressão da ditadura militar, às vésperas do exílio para o qual ela partiria com Sganzerla e Julio Bressane pouco depois, enquanto inventavam obras ainda mais radicais com a produtora Belair.

Na produção, ela vivia a indomável Angela, mulher violenta e insaciável, que pula de homem e homem como uma "vampira histérica", como descreve o narrador numa das cenas.

Restaurado digitalmente, a obra estreia, nesta sexta (21), numa sessão na Cinemateca Brasileira, que impressiona pela limpidez da imagem e do som e retoma os filtros de cores, aspecto apagado nas cópias de baixa qualidade em circulação até agora. É o quarto resgate desse tipo na obra de Sganzerla, num projeto coordenado por sua filha, Sinai.

Parte do original, o elemento cromático, que banha o preto e branco da película com rosa, azul e amarelo, não é mero requinte. "Em preto e branco é maravilhoso, mas não é 'A Mulher de Todos'", diz Ignez. "Existe uma dramaturgia na cor, como quando o mar, de repente, se avermelha com o sangue da nossa gente na ditadura."

No seu caldeirão de referências, o filme passa pelo pop Roy Lichtenstein, pelo francês Jean-Luc Godard, pelo Japão desenfreado de Nagisa Oshima, pelas histórias em quadrinhos, qual um caldeirão de paixões do próprio Sganzerla —incluindo a própria atriz, com quem foi casado por mais de 30 anos.

"O filme foi feito para mim e a partir de mim", afirma Ignez. E em torno dessa presença magnética gravitam "boçais" que Angela leva para a nudista Ilha dos Prazeres, personagens vividos por nomes como Stênio Garcia —um maltrapilho cabeludo com quem ela começa aos sopapos—, Antonio Pitanga —"o único negro milionário do Brasil"—, Paulo Villaça —um cabeleireiro do Brás que se passa por toureiro— e Renato Corrêa de Castro, o detetive trapalhão Polenguinho, contratado pelo marido dela, Doktor Plirtz, um empresário que adora se vestir de general, papel de Jô Soares.

"Rogério gostava muito do Jô, ele tinha voltado há pouco da Suíça, estava começando. Eles riam muito, daquele jeito, de homens conversando entre si", diz Ignez, em uma de suas leves pontadas ao machismo que ela, há décadas, ataca no meio cinematográfico.

Afinal, foi a então jovem da elite baiana quem agitou a cena no início daquela década, quando se separou de Glauber Rocha, seu primeiro marido, após ajudar a financiar e protagonizar "Pátio", em 1959, o primeiro curta do cineasta. Ela lembra que os colegas de cinema novo pediam permissão ao autor de "Terra em Transe" para convidá-la para outras produções.

Com Sganzerla —ao lado de quem ficou até sua morte, em 2004— foi diferente. "Ele era meu fã, chegou mostrando uma crítica belíssima que tinha feito sobre 'O Padre e a Moça' e me convidando para o 'Bandido'. Eu era sete anos mais nova que ele, já era do cinema novo, mas como houve o escândalo da separação, saí do cinema de Glauber", diz ela, que vê esses dois momentos da sua obra como um yin-yang particular.

"'A Mulher de Todos' foi uma prestação de contas com a vida. Atuei de maneira livre, mas sabendo que estava sendo guiada por um gênio invulgar, que quebrava meu ritmo, pulava, gritava, era ótimo", diz ela, que também é cineasta e diretora de teatro. "Hoje existem preparadores [de elenco] e a qualidade da criação talvez não seja tão extraordinária."

Ignez, porém, não titubeia ao comentar a performance da vez, de Fernanda Torres, em "Ainda Estou Aqui". "É um gênio, indo no caminho da mãe."

O trabalho da veterana, ainda assim, foge de traços psicológicos, incorporando elementos do teatro, da dança —Kazuo Ohno como ídolo— e das artes marciais, como o Tai Chi Chuan, que praticava por horas a fio. "Sou experimental como Orson Welles é um diretor experimental, no sentido de ter um imenso conhecimento do que se está fazendo", diz. "Sou uma atriz orgástica."

A MULHER DE TODOS

- Quando Sex. (21), às 19h, seguido de debate com Helena Ignez e Débora Butruce

- Onde Cinemateca Brasileira - lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, São Paulo

- Preço Grátis

- Classificação 16 anos

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?