(FOLHAPRESS) - O Theatro Municipal de São Paulo apresentou, enfim, as primeiras duas óperas do ano. A temporada lírica, é verdade, se iniciou com a remontagem de "O Guarani" e a leitura circense de "Don Giovanni", mas, de tão horrorosas, as encenações não conseguiram sequer atender aos parâmetros que sempre distinguiram a arte operística. Não é o caso, porém, da double bill agora em cartaz, formada por "Le Villi", ou as fadas, do italiano Giacomo Puccini, e pela estreia latinoamericana de "Friedenstag", ou dia de paz, do alemão Richard Strauss.
As obras foram bem executadas, com cantores adequados aos seus respectivos papéis. A questão é outra. Chega a ser incompreensível a escolha da diretoria do Municipal por um diálogo entre duas óperas que nada têm a ver entre si. Ao que parece, o diretor cênico dos espetáculos, André Heller-Lopes, teve um trabalho de Sísifo para justificar confluências entre "Le Villi" e "Friedenstag". Apesar de seus esforços, uma falha conceitual subsiste como sintoma do afastamento dramático e musical dos títulos.
De acordo com o programa, Heller-Lopes ambientou "Le Villi" nos primeiros anos do século 20, como um prelúdio à ópera de Strauss, cuja criação teve como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. O diretor inspirou-se nos filmes "Metrópolis", de Fritz Lang, e "Tempos Modernos", de Charlie Chaplin, criando um cenário semelhante à repartição de uma fábrica, com o numeroso coro fazendo as vezes de massa trabalhadora. Em cena, paira no ar um clima de despedida, como se um navio fosse partir a qualquer momento, separando os trabalhadores de suas famílias.
Ocorre que "Le Villi", estreada em 1884, faz referência às willis, seres da mitologia eslovaca representantes dos espíritos vingativos das noivas mortas antes do casamento. Nada mais romântico do que isso. Nesse sentido, deslocar a ação para a modernidade retira o misticismo fantasmagórico que atribui graça à primeira ópera de Puccini.
Contudo, a coreografia desenvolvida ao redor de mesas, transformadas em florestas e em caixões, tem sofisticação, porque reforça o estatuto de ópera-balé, assim como indicado pelo compositor, e dialoga com a tradição das willis no balé romântico, em especial o gestual de "Giselle".
Assinado por Ferdinando Fontana, o libreto de "Le Villi", conta a história de Anna, interpretada na estreia pela soprano Gabriella Pace, que, abandonada por Roberto, papel do tenor Eric Herrero, definha até a morte, mas volta para assombrá-lo, junto com outras willis. Destaca-se a interpretação do barítono Rodrigo Esteves na pele de Guglielmo, pai de Anna, além do Coro Lírico Municipal e da Orquestra Sinfônica Municipal, agora sob regência de Priscila Bomfim, com desempenho correto também na segunda ópera.
O contexto de criação de "Friedenstag", estreada em 1938, é tão complexo quanto sua escrita vocal. Nos anos do nazismo, Stefan Zweig, autor de "Brasil, País do Futuro", apresentou o rascunho do libreto para Strauss, que trabalhou na música. Como era judeu, a parceria de Zweig com o compositor, egresso do cargo de diretor musical do Reich, tornou-se inviável, e o libreto é hoje atribuído a Joseph Gregor.
Com "Friedenstag", Zweig e Strauss manifestaram o desejo pela paz, ambientando o libreto numa fortaleza, nos momentos finais da Guerra dos Trinta Anos. Enquanto as pessoas reclamam de fome, um mensageiro piemontês, outro papel de Herrero, descreve o que é a paz numa canção. O Comandante, encarnado pelo barítono Leonardo Neiva, resiste à ideia de dar fim ao conflito, mas acaba sendo convencido por sua mulher, Maria, personagem da soprano japonesa Eiko Senda, a optar pela paz.
O cenário é inteligente e comporta bem a ação do espetáculo, que se esmerou nos colossos vocais de Neiva e de Senda, talvez a única cantora atuante na cena brasileira capaz de interpretar o papel. Mesmo na Europa, essa obra de Strauss é pouco encenada. Por isso, é um fato importante que a estreia na América Latina ocorra em São Paulo. Pena que o profissionalismo deva durar pouco no Municipal.
FRIEDENSTAG E LE VILLI
Avaliação Muito bom
Quando Até dom. (27)
Onde Theatro Municipal de S. Paulo - pça. Ramos de Azevedo s/n
Preço R$ 33 a R$ 210
Classificação Livre
Autoria Giacomo Puccini e Ferdinando Fontana; Richard Strauss, Joseph Gregor e Stefan Zweig
Elenco Com Gabriella Pace, Eric Herrero, Leonardo Neiva e Eiko Senda
Direção André Heller-Lopes e Priscila Bonfim

