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'O Infinito em um Junco', de Irene Vallejo, reflete a luta contra a morte

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

26/06/2022 14h03 — em
Arte e Cultura



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O subtítulo de "O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo" nem começa a fazer justiça à amplitude de seus temas. Na verdade, o novo livro da espanhola Irene Vallejo, e primeiro a ser publicado no Brasil, é uma história do próprio conhecimento, de nossa luta humana contra a morte, contra a entropia, contra o olvido.

A princípio, não parece um tema que mobilizaria multidões de leitores. Ou, pelo menos, era o que Irene ouvia de todos. A editora de seus primeiros dois romances, mais direcionada à ficção, não quis publicar. Ela mesmo considerava que seria seu título menos comercial. Enquanto trabalhava, teve um parto de alto risco, seu filho nasceu com sérios problemas de saúde e seu pai foi diagnosticado um câncer terminal.

"Esse livro nasceu como um refúgio para mim", disse Irene. Os agradecimentos à equipe de pediatria neonatal são daquelas linhas que falam volumes nas entrelinhas. Quando o hospital comemorou seu aniversário de 50 anos, Irene deu uma belíssima palestra.

Mas "O Infinito em um Junco", de tema aparentemente tão desinteressante, já vendeu 700 mil exemplares e foi traduzido para 39 línguas, inclusive para o inglês, sob o título "Papyrus", ou papiro. Por que tanto sucesso?

Apesar de teoricamente se restringir à invenção do livro no mundo greco-romano, o texto de Vallejo é repleto de curiosidades suculentas de todas as épocas e culturas. Por exemplo, no começo do cinema mudo, para aliviar a tensão da ausência de vozes, as primeiras sessões de filmes tinham "explicadores", um profissional que estava lá, ao vivo e presencialmente, lendo em voz alta os intertítulos para quem não sabia ler, e também funcionando como mestre de cerimônias de modo geral.

No auge do cinema mudo, alguns explicadores ficaram famosos e atraíam as plateias tanto quanto o próprio filme. O irmão mais velho do cineasta Akira Kurosawa foi um deles, que se matou quando o cinema sonoro acabou com seu trabalho.

Ser uma excelente "explicadora" é justamente o maior mérito de Vallejo e a razão do merecido e milagroso sucesso do livro.

Apesar de suas credenciais acadêmicas impecáveis -tem doutorado em filologia clássica pelas universidades de Saragoça e de Florença-, o livro de Vallejo não é acadêmico, mas sim de divulgação científica.

Acadêmicos em geral torcem o nariz para "explicadores", ou seja, para aqueles profissionais que, em vez de fazer pesquisa original, se dedicam a divulgar essas pesquisas para um público mais amplo. Por exemplo, a ciumeira de historiadores contra o excelente Laurentino Gomes. Mas enquanto os acadêmicos estão encastelados em suas torres de marfim, o mundo aqui fora se torna cada vez mais terraplanista.

Em seus anos de sala de aula ensinando cultura clássica greco-romana, Vallejo aprendeu que, muitas vezes, as dúvidas mais interessantes e mais frutíferas de seus alunos eram práticas. Qual foi o primeiro alfabeto? E o primeiro livro? E a primeira biblioteca? E a primeira livraria? Como se lia na Antiguidade? Quando as mulheres começaram a ler? São perguntas como essas que "O Infinito em um Junco" busca responder.

Vallejo, além de mesclar saborosas narrativas íntimas com o mais cuidadoso rigor factual, consegue conectar a história antiga que está narrando com todo tipo de fenômeno cultural contemporâneo. O que nas mãos de outros autores seriam episódios exóticos e empoeirados, ela torna urgentes e relevantes.

Pelo dom de seu talento contagiante, Vallejo pega tudo aquilo que a fascina -o conhecimento, os livros, o cânone- e transforma em fascinante para nós também. Ela é, nas suas próprias palavras, "uma proselitista da fascinação":

"Passei dez anos lutando com um desassossego crescente. Escrevi todos os artigos e teses que o mundo acadêmico me pediu. Esse livro foi minha primeira rebelião. 'As Mil e Uma Noites', o 'Decamerão' dos livros."



O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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