Início Arte e Cultura Novo 'Hellboy' é teimoso em uma franquia que rema contra o sucesso
Arte e Cultura

Novo 'Hellboy' é teimoso em uma franquia que rema contra o sucesso

FOLHAPRESS - A queda de prestígio de Hellboy nos cinemas explica tão bem o funcionamento de Hollywood que ainda algum dia ela vira tese de um doutorado mais sério. O diabo vermelho passou por todas as fases dos filmes baseados em quadrinhos deste século, mas só ele remou contra o sucesso. Enquanto os super-heróis dominavam o mundo, ele se tornou um vulto nos estúdios americanos, com cada vez menos espaço à sua disposição.

Os maus tratos com o personagem são tantos que ele chega agora à sua quarta aventura nas telonas, "Hellboy e o Homem Torto", por pura teimosia. A começar pelo orçamento do filme, reduzido a US$ 20 milhões —ou R$ 112 milhões—, literalmente um décimo do custo dos últimos "Batman" e "Homem-Aranha". O valor baixo impressiona para uma série que já gastou quase US$ 100 milhões em um único longa.

O filme insiste só para existir, como se fosse um manifesto do criador dos gibis, Mike Mignola, pelo personagem. O quadrinista pela primeira vez assina o roteiro de um capítulo da série nos cinemas, e a produção por acaso é a primeira a assumir o horror dos gibis de Hellboy.

Para isso, a trama volta no tempo, até os anos 1950, e aposta nos cenários vazios do interior americano. Perdido no mato depois de um acidente de trem, o protagonista se depara com um camponês ameaçado por uma assombração. O tal Homem Torto do título quer a alma do sujeito desde a infância e Hellboy, de paraquedas na situação, se torna um obstáculo aos seus interesses.

Assim, o flerte com o terror dos filmes anteriores, feitos por gente como Guillermo del Toro e Neil Marshall, é consumido agora em gozo pouco discreto. A contenção de gastos ajuda, substituindo polimento por intensidade. Ao invés de criaturas elaboradas, com design entre o encantador e o assustador, "Hellboy e o Homem Torto" se faz nos cenários escuros e cortes rápidos, que escondem a ação.

O próprio Hellboy entra nessa dança de custos e gênero, mais jovem na pele de Jack Kesy e dessa vez um agente paranormal iniciante. O seu visual é simplificado, a pele vermelha empalidece e ele troca os charutos por cigarros. Ao espectador, cabe decidir se a troca de fumo foi decisão de orçamento ou comentário sarcástico da produção sobre a juventude.

O filme, em si, deve afastar parte do público por essa mudança de chave, mas ele mesmo sofre com o processo. A continuação não dá conta da história simples e, nos piores momentos, empacota cenas de maneira tão isolada que trava o andamento das coisas.

Ao mesmo tempo, a direção de Brian Taylor está longe da debilidade. Se o filme tem cara de três em um, o diretor pelo menos sabe como organizar os pequenos clímaxes da trama em torno da ação. Tudo na sequência é minúsculo, mas ganha gravidade na base do desespero e da alternância esperta entre subgêneros —a continuação vai do terror à la "O Homem de Palha" a imitação sincera de "A Morte do Demônio".

Disso saem alguns bons momentos, em especial no prólogo e na metade que, por coincidência, se dão bem na claustrofobia. O primeiro é o tal acidente de trem do começo, com uma aranha gigante presa e descontrolada no vagão de carga. Já o segundo ensaia uma situação de sítio, com Hellboy e o seu grupo acuados pela assombração em uma igrejinha, onde enfrentam zumbis e ilusões.

O grande azar de "Hellboy e o Homem Torto" nessa hora é que ele insiste em leonizar o protagonista, mesmo o tendo como coadjuvante. O longa cava de novo o agouro de Hellboy como arauto do apocalipse para dentro da trama, usando o Homem Torto como profeta, mas o esforço sai tosco. O mito do personagem condiz pouco com as ambições pequenas da obra, que desanda dentro desse equilíbrio mal pensado.

Então a tal mitologia dos quadrinhos invade a narrativa do filme, e o resultado entediante lembra boa parte dos filmes de super-herói dos últimos tempos. A diferença está mesmo no orçamento, que impede o Homem Torto de soltar um raio azul no céu ou virar um monstro gigante —no lugar, temos uma nova casa abandonada e uma montagem paralela ruim.

Ou seja, "Hellboy e o Homem Torto" está mais para novo sintoma que rota alternativa no nicho inchado dos filmes baseados em gibis. Que notícia péssima.

HELLBOY E O HOMEM TORTO

- Avaliação Regular

- Quando Estreia nesta quinta (5) nos cinemas.

- Classificação 16 anos

- Elenco Jack Kesy, Jefferson White e Adeline Rudolph

- Produção Estados Unidos, 2024

- Direção Brian Taylor

Obras de drenagem mantêm interdição de rua no Centro neste domingo
Portal do Holanda Vídeo
Amazonas
Portal do Holanda
Obras de drenagem mantêm interdição de rua no Centro neste domingo
AGORA
portaldoholanda.com.br 1 de 12
1 / 12 Ler

Siga-nos no

Google News

Receba o Boletim do Dia direto no seu e-mail, todo dia.

Comentários (0)

Deixe seu comentário

Resolva a operação matemática acima
Seja o primeiro a comentar!