Morre Paulinho Camafeu, precursor do axé que reafricanizou o Carnaval

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

30/11/2021 17h35 — em Arte e Cultura

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Morreu na noite desta segunda-feira (29) o músico e compositor Paulinho Camafeu, os 73 anos, um dos precursores do axé music, que ajudou a reafricanizar o Carnaval de Salvador.

Camafeu estava internado no Hospital do Subúrbio, na capital baiana, desde 18 de novembro com problemas cardíacos. Ele havia sido intubado após o agravamento de seu quadro de saúde. Nesta terça, sofreu uma parada cardíaca.

Um dos principais compositores da Bahia, Paulo Vitor Bacelar, como era o seu verdadeiro nome, começou sua trajetória na música como percussionista nos movimentos de samba do bairro do Pau Miúdo, em Salvador.

Depois, ganhou destaque como percussionista em escolas de samba da capital baiana e como compositor do Apaches do Tororó, bloco de inspiração indígena.

Filho de um comerciante do Mercado Modelo, deu os primeiros passos inspirado no padrinho, o compositor Camafeu de Oxóssi, mestre de capoeira e ex-presidente do Filhos de Gandhy. Dele, herdou o nome musical.

Em 1974, compôs a música "Ilê Aiyê (Que Bloco é Esse)", com versos que se tornariam marcantes: "Que bloco é esse?/ Eu quero saber/ É o mundo negro que viemos mostrar pra você/ Somos crioulo doido, somos bem legal/ Temos cabelo duro, somos Black Power".

A composição foi apresentada pelo bloco afro Ilê Aiyê em 1975 e é considerada um passo crucial no movimento de reafricanização do Carnaval baiano. Em 1977, foi gravada por Gilberto Gil no disco "Refavela".

Nos anos 1980, ao lado de Luiz Caldas, Paulinho Camafeu compôs a música "Fricote", que viria a se tornar o primeiro marco do axé. Antes, compôs a música "Deboche", sucesso na voz de Sarajane.

Camafeu também foi parceiro do Chiclete com Banana: foi um dos autores das músicas "Menina do Cateretê" e "Meu Cabelo Duro É Assim".

"Paulinho Camafeu é uma grande referência que deixa um legado gigantesco. É um marco na música da Bahia, que revolucionou o Carnaval quando fez ‘Que Bloco É Esse’", afirma o cantor e compositor Tonho Matéria, parceiro de Camafeu na música "Samba da Rita".

Mesmo com tamanha contribuição à música da Bahia, diz Tonho Matéria, Paulinho Camafeu não teve o devido reconhecimento. Com saúde frágil, enfrentou dificuldades nos últimos anos de vida.

A morte de Paulinho Camafeu foi lamentada por autoridades e artistas baianos nesta terça-feira.

O cantor e compositor Gilberto Gil relembrou que conheceu Paulinho Camafeu ainda muito jovem, no Mercado Modelo, depois de ter voltado do exílio em Londres. E destacou a sua importância para a música da Bahia.

"Uma pessoa doce, gentil, um talento daqueles que brotam nas ruas de salvador. Um belo percussionista com toda uma impregnação profunda da africanidade, da baianidade. Me habituei a chamá-lo de menino, então é um menino que se vai depois de uma vida muito bonita", afirmou.

Caetano Veloso também destacou a trajetória de Camafeu: "O autor de 'Que bloco é esse' anunciou o Ilê Aiyê, que anunciava uma nova era. Foi o gesto de a Bahia autodeclarar-se negra. Isso se deu pelos versos de Paulinho. Nunca esqueceremos, nunca poderemos esquecer esse fato".

A cantora Daniela Mercury fez a sua deferência: "Adeus para nosso querido e genial músico e compositor Paulinho Camafeu. Ele era um dos grandes do axé. Fez tantas músicas maravilhosas e importantes para nós. Paulinho deixou um legado de luta e beleza".

O prefeito de Salvador, Bruno Reis, do DEM, também lamentou a morte do artista: "A Bahia perde o inesquecível Paulinho Camafeu, um dos responsáveis por expandir nossa cultura para o mundo ao som de verdadeiros hinos do axé".

O senador Jaques Wagner, do PT, disse que "a Bahia está de luto" com morte de Paulinho Camafeu: "Seu nome ficará na história como um ícone da nossa cultura e um dos grandes compositores da música baiana".


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