RIO – O escritor Marques Rebelo, fino cronista do Rio, defendia que uma cidade é feita de várias cidades. O historiador Luiz Antonio Simas evocará essa ideia em sua estreia como colunista do Segundo Caderno, na próxima quinta-feira. A referência — e reverência — não é vã. O objetivo central de Simas no espaço será exatamente iluminar alguns dos Rios que não costumam ser lembrados nas grandes narrativas, seja nas páginas dos livros ou dos jornais.
— Gosto de fazer uma ponte entre a crônica e a História, a partir de um corte da cultura. Vou seguir nessa linha — adianta Simas. — Na imprensa de uma forma geral, as colunas caem no diálogo com a política institucional, até por conta da crise na qual vivemos. Minha ideia é trabalhar uma perspectiva vinculada à cultura, falando a partir de uma perspectiva que não é muito contemplada, da cidade que foge do padrão cartão postal. Tenho interesse pelo que é aparentemente trivial. As culturas de rua, que surgem na fresta, esse espaço subversivo, de inversão constante, de criação de estratégias de sobrevivência: o samba, o carnaval, as religiosidades populares, o funk...
A produção literária de Simas ilustra a amplidão — e a geografia periférica, suburbana — de sua área de interesses. Ele é autor de livros como “História social do samba” (escrita com Nei Lopes, a obra ganhou o Prêmio Jabuti de 2016), “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” e “Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros”.
— Nas coisas que estudo, eu questiono o tempo todo uma visão de mundo fundamentada no eurocentrismo. Essa centralidade é o projeto colonial que acabou sendo vitorioso. Gosto de dizer que o Brasil é um projeto de país que deu certo, ele foi projetado pra ser isso. Nada desandou aqui. É um projeto que inclui desigualdade social, etnocentrismo, tudo isso — avalia o historiador. — Minha tarefa é propor um debate sobre descolonização. Gosto de ver como nas frestas desse projeto vitorioso constrói-se algo muito potente.
O olhar que Simas promete expor em sua coluna no GLOBO foi construído desde a infância, como ele explica:
— Venho de uma família muito ligada a isso. Minha avé era mãe de santo em Nova Iguaçu. Cresci muito nesse terreno entre terreiro e samba, Maracanã, aquela coisa toda. E no colégio não via nada disso. Chegando à faculdade fui amadurecendo a percepção de que havia ali na história ignorada da minha avó, dessa cidade que eu vivia, um manancial grande pra falar da História do Rio, do Brasil. É um absurdo pensar que um garoto que mora no Morro de São Carlos recebe na escola uma enorme carga de informação a respeito do absolutismo francês mas não sabe que ao lado de onde ele vive construiu-se um dos maiores símbolos da civilização carioca e brasileira, que foi o samba. É como se não tivéssemos História.
No Segundo Caderno, Simas substitui o arquiteto Washington Fajardo (foto à esquerda), outro observador da cidade — mas de uma perspectiva mais urbanística. A coluna de Fajardo se muda para a editoria Rio, aos sábados — a estreia é no dia 9. A mudança vem com novidades.
— Terei espaço para imagens, gráficos... Um recurso que dá mais possibilidades para falar de arquitetura, de edifícios emblemáticos da cidade — diz Fajardo, que saúda a chegada de Simas. — Simas é um raro historiador da cultura popular urbana. Já minha coluna aborda o que está acontecendo hoje no urbanismo carioca, e como a arquitetura se relaciona com isso.

