FOHAPRESS - Quem pensa no legado literário da Grécia Antiga quase invariavelmente tem na cabeça os poemas épicos de Homero ou o teatro ateniense. Mas os gregos da Antiguidade também inventaram o romance de aventura, um gênero repleto de novelões deliciosos cujo maior expoente acaba de ganhar uma tradução brasileira. Não se assuste com o título impronunciável. "Quéreas e Calírroe", livro provavelmente escrito em meados do século 1º d.C. por um obscuro especialista em retórica chamado Cáriton de Afrodísias, talvez seja uma das melhores introduções possíveis à literatura helênica antiga, graças ao texto ágil e divertido. Afrodísias, que ficava no sudoeste da atual Turquia, deve seu nome à deusa da beleza e do amor, Afrodite, e a influência da divindade se faz sentir o tempo todo nas desventuras em série dos protagonistas da obra, um casal de jovens apaixonados. Quéreas e sua amada Calírroe são membros da elite da cidade-Estado de Siracusa, na Sicília, por volta de 400 a.C. (séculos, portanto, antes da época em que o autor viveu; trata-se de uma espécie de romance histórico). Num momento de ciúme descontrolado -afinal, não há homem em Siracusa que não esteja atrás da irresistível Calírroe-, Quéreas agride sua jovem mulher e aparentemente a mata. Inconsolável, deposita seu corpo num mausoléu repleto de oferendas. Mas é claro que a moça, na verdade, ficou apenas desacordada, e uma sucessão de peripécias, envolvendo piratas, traficantes de escravos, eunucos e até imperadores, leva os dois a atravessarem o Mediterrâneo e a Mesopotâmia tentando se reencontrar. Há algo muito próximo da novela televisiva -e até de sua variante mexicana- na lógica narrativa do livro. Coincidências improváveis e discursos grandiosos estão por toda parte, bem como abundantes lágrimas vertidas pelo casal azarado. Por outro lado, o texto alude o tempo todo aos clássicos da literatura grega, em especial Homero (detalhes devidamente ressaltados pela cuidadosa tradução de Adriane da Silva Duarte, professora de língua e literatura gregas da USP). E a ambientação histórica, que engloba os desastres da chamada Guerra do Peloponeso (entre as cidades-Estado de Atenas e Esparta, na qual Siracusa também se viu envolvida) e o poderio do Império Persa no Oriente Médio, vale como um convite para entender melhor a história e os costumes do período clássico helênico. O paradoxo aqui, claro, é que a narrativa foi composta num momento em que as cidades gregas tinham perdido havia muito sua independência para o Império Romano (e, antes disso, para Alexandre, o Grande e seus sucessores). Portanto, o romantismo remoto do período retratado vale tanto para os leitores originais do livro quanto (numa medida maior, é claro) para o público moderno. A influência de "Quéreas e Calírroe" e outros romances gregos acabaria se estendendo até sobre a nascente literatura cristã (majoritariamente também escrita em grego). Um dos textos apócrifos (não incluídos na Bíblia) mais populares dos primeiros séculos cristãos, os "Atos de Paulo e Tecla", reproduzem o mesmo clima aventureiro e sensual -uma linda protagonista, amores não correspondidos, resgates por um triz- a serviço de uma mensagem ascética e em defesa da castidade. QUÉREAS E CALÍRROE Preço R$ 57 (208 págs.) Autor Cáriton de Afrodísias Editora Editora 34 Tradução Adriane da Silva Duarte Avaliação Muito bom
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