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Kamasi Washington, astro do jazz, faz música política mesmo sem usar palavras

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

23/05/2022 20h36 — em
Arte e Cultura



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na penúltima vez em que esteve no Brasil, o saxofonista Kamasi Washington teve uma experiência típica de Carnaval. "Encontrei uns músicos que me chamaram para tocar depois do show. Fui encontrar com eles atrás do teatro. Achei que a gente ia para algum outro lugar, mas começamos a tocar ali mesmo, e as pessoas foram chegando."

Ele lembra o episódio, no Rio de Janeiro, em 2018, como um dos momentos mais incríveis de sua vida. "Começamos a andar em direção à praia. A certa altura, tinha, sei lá, umas 300 pessoas, tomando a rua. Tinha instrumentos de percussão, de corda e de sopro, gente cantando. Fui embora às dez da manhã, mas eles continuaram lá."

Washington é uma das estrelas do jazz no mundo atualmente, e está de volta ao Brasil para shows em São Paulo, nesta quarta, e toca depois Porto Alegre, na sexta, Rio de Janeiro, no sábado, e em Curitiba, no domingo. Na visão dele, essa experiência de tocar nas ruas, interagindo com a arquitetura da cidade, casa com um senso de coletividade e espontaneidade que é uma das forças por trás de sua obra.

"Quando nos apresentamos, tento deixar cada integrante da banda estar naquele momento e naquele lugar. Cada show é meio diferente, nunca tocamos a mesma coisa duas vezes do mesmo jeito. Tudo que está ao nosso redor contribui com o que a música se torna. As pessoas, o lugar em que estamos tocando, o entorno —tudo leva a música a se tornar o que ela quer ser aquele dia", ele diz.

Um dos raros astros do jazz que surgiu nos últimos anos, Washington é uma figura que extrapola seu gênero de origem. Ele já tocou com mestres do jazz como Herbie Hancock, mas também com Lauryn Hill, Snoop Dogg e Flying Lotus, entre muitos outros.

"Mesmo o jazz sendo a base, ele nunca foi o único estilo que toquei, em nenhum momento da minha vida", diz o saxofonista. "Claro que me inspirei em músicos de jazz, mas também em músicos de gospel, funk, de rock, de música clássica. Sempre encarei a música como uma língua —nenhuma é melhor que a outra, elas só são diferentes. Quanto mais línguas você fala, melhor você consegue se comunicar."

Sua busca, ele diz, é por um tipo livre de expressão da própria personalidade. "As pessoas não ouvem música da perspectiva de quem faz, mas da perspectiva delas. Então, se você não viver experiências na vida, ou não conseguir pôr isso na sua música, ninguém vai querer ouvir. Tem mais a ver com isso do que puramente com música."

Washington ascendeu ao estrelato em 2015, quando lançou seu disco de estreia, "The Epic", e participou do aclamado álbum "To Pimp a Butterfly", de Kendrick Lamar. Não só ele ganhou notoriedade, mas toda uma cena de jazz, funk e rap de Los Angeles, que também inclui gente como o baixista Thundercat.

"Existe uma noção da música de que para fazer algo que seja popular, tem que ser bem simples. E ‘To Pimp a Butterfly’ é exuberante. Melodicamente, ritmicamente, em termos de letra, de estrutura, tudo é muito intenso, de um jeito complexo."

Ele conta que, no estúdio, ficou surpreso com a reação de Lamar quando propôs caminhos mais complexos para suas partes de sax no álbum. "Eles sempre dizem para você fazer o que quiser, mas nunca é totalmente verdade. Não querem a harmonia de sete partes, querem a de três. E Kendrick foi tipo, ‘não, me dê a de sete partes’. Foi um disco que tocou as pessoas e quebrou essa noção. Quando encontro músicos, vejo que eles mudaram esse entendimento. Com o passar dos anos, vamos ver ainda mais os efeitos desse álbum na música."

Recentemente, Washington lançou dois singles, "The Garden Path" e "Sun Kisses Child", além de ter feito a trilha do documentário da Netflix "Minha História", sobre a ex-primeira dama americana Michelle Obama. Também gravou uma versão em jazz de "My Friend of Misery", do Metallica, parte das comemorações de 30 anos do álbum preto da banda de heavy metal.

Ele também tocou em "Dinner Party", álbum descontraído que marca o encontro do saxofonista com um time de peso, incluindo o produtor Terrace Martin, o pianista Robert Glasper e o beatmaker 9th Wonder. Foi um trabalho feito do jeito que Washington mais se sente à vontade —sem ideias pré-concebidas.

"Se chama ‘Dinner Party’ justamente porque a gente só alugou algumas horas de estúdio, o Terrace Martin estava com os beats do 9th Wonder, e ficamos ali só nos divertindo com a música. Não tinha uma pauta, era um papel em branco. Toda vez que alguém tinha uma ideia, a gente punha na música. Foram as sessões de música mais casuais em que já estive na vida."

O disco, que reflete esse clima relaxado das sessões, mistura batidas de rap no estilo anos 1990 com vocais de R&B e arranjos de jazz, e concorreu no último Grammy na categoria de R&B progressivo. A última edição da premiação, aliás, consagrou na categoria álbum do ano o trabalho "We Are", do jazzista Jon Batiste.

"O jazz está envelhecendo, tem mais de cem anos. É uma nomenclatura que está em músicas muito diferentes. Se você ouvir Chuck Berry, vai pensar que rock and roll é aquilo, e não o Radiohead. Jon Batiste é um homem dos tempos de hoje e, com as experiências que ele teve, tem muito mais condições de se conectar com as pessoas hoje do que, por exemplo, Louis Armstrong —que só viveu no passado."

O saxofonista lamenta a morte de Letieres Leite —o maestro que jogou luz sobre a percussão afro-baiana na Orkestra Rumpilezz— e se diz animado com os nomes que vêm surgindo no jazz. Ele lembra os brasileiros Amaro Freitas, do Recife, e Jonathan Ferr, do Rio de Janeiro, pianistas que fundem o jazz com outros estilos e reivindicam o caráter popular do gênero.

"Houve um momento em que se enfatizou muito o jazz de uma época diferente, mas acho que pela primeira vez em muito tempo a percepção está mais relacionada ao jazz de hoje. Me sinto encorajado por esses novos nomes, as pessoas estão interessadas neles, e não em quem os inspirou."

Rodando a América do Sul com sua primeira turnê depois de anos em isolamento social, Washington também prepara um novo álbum, que tem uma melodia feita por sua filha de um ano. Ainda não concluída, é uma obra que deve refletir o tempo passado em casa. "Se você me deixar muito tempo sozinho, minha mente meio que viaja até mundos imaginários."

É um caminho um pouco diferente de "Heaven and Earth", seu álbum de 2018, lançado no calor da era Trump, que tem músicas explicitamente políticas como "Fist of Fury" —de versos como "nosso tempo de vítima já era". Ele também tocou em "Pig Feet", faixa agressiva com Terrace Martin e os rappers Denzel Curry, Daylyt e G Perico, publicada em meio à onda de protestos do Black Lives Matter, em 2020.

Mas toda a sua música, ele diz, é política, mesmo quando nenhuma palavra é dita —como a maioria de sua obra. "A comunicação é 90% não verbal. Até tenho músicas com letra, mas as ideias em que acredito são mais universais. Palavras são muito diretas, ainda que exista a poesia, dando significados múltiplos a elas. Mas estou mais interessado em trazer ideias que abram várias e várias possibilidades."

Segundo ele, liberdade é o conceito mais importante. "A política sempre vai precisar de ajustes para o tempo em que vivemos. Quero contribuir com o pensamento das pessoas sem necessariamente levar em conta a política que governa eles neste momento. Até música de festa pode ser política. Não quero dizer o que as pessoas têm que fazer, estou mais interessado em trazer ideias. Se eu tivesse que ter uma missão seria fazer as pessoas pensarem por si mesmas, e entenderem que elas não só têm o poder —elas na verdade são o poder."

A consciência social, diz o saxofonista, é uma construção coletiva —como um encontro musical nas ruas em direção à praia. "No palco, em vez de eu sair ditando como a banda tem de se comportar, todos nós temos que decidir o que fazer. Quando eliminamos o ego, só queremos fazer a melhor música que podemos e acabamos indo na mesma direção. Todo mundo tem uma existência própria —até minha filha, ela tem um ano e meio e entende coisas que eu não sou capaz de entender. Todos temos algo a contribuir."

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KAMASI WASHINGTON NO BRASIL

Quando: Nos dias 25 (SP), 26 (RS), 28 (RJ) e 29 (PR) de maio

Onde: Audio (São Paulo), Auditório Araújo Vianna (Porto Alegre), Marina da Glória (Rio de Janeiro) e Ópera de Arame (Curitiba)

Preço: a partir de R$ 140 (SP), R$ 60 (RS), R$ 200 (RJ) e R$ 175 (PR)

Autor: Kamasi Washington



O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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