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Illy, a nova aposta da MPB

RIO - Sentada no sofá da sala, digerindo o almoço tardio, Illy Gouveia escuta uma versão alternativa de “Devagarinho”, canção de Arnaldo Antunes que estará em seu disco de estreia. Inclinada para frente, cigarro na mão, ela ouve a própria voz com expressão sisuda. Ao se dar conta de que está sendo observada, relaxa:

— Brincam que sou muito crítica, que tenho ouvido de João Gilberto. Mas, comigo, sou chata mesmo. Quero tudo perfeito — diz a cantora baiana (“e virginiana”, acrescenta).

Nascida em Salvador há 30 anos, Illy (é nome de batismo) está desde 2015 no Rio. De cara, chamou atenção pelo timbre suave e preciso e por seu repertório pessoal e intransferível, que combina canções da Confraria da Bazófia (cultuado coletivo de compositores baianos) e pérolas da MPB. De contato em contato, de show em show, foi conquistando espaço e prestígio para gravar um disco de estreia sob medida. Natural que, depois de dois anos, essa perfeccionista procure caprichar.

— Quero que o meu disco tenha minha cara, não a mais pop. Sou filha de Oxum e Iemanjá e fã de Ella Fitzgerald, e quero essa mistura no estúdio — diz ela sobre “Voo longe”, que deve ser lançado em esquema independente entre junho e julho. — Tenho vontade que as pessoas me conheçam, mas pelo meu trabalho. Sucesso é consequência, a arte é que está na frente.

A morena de cabelos longos (comparações frequentes: Emanuelle Araújo e Marisa Monte) conta que está envolvida com música desde criança, quando participava de saraus na casa da família em Salvador. Quando cresceu, estava em todas: puxou trio elétrico, cantou em trilhas de peças de teatro, viajou com o grupo Samba Dibanda, estudou na Escola Baiana de Canto Popular e... fez administração na Faculdade da Cidade.

Era um Plano B que estava prestes a virar Plano A quando seu namorado, Jorge Velloso, a convenceu a se mudar para o Rio. Sobrinho-neto de Caetano Veloso, aos poucos ele foi inserindo Illy na cena carioca. Ela estava, por exemplo, no jantar que Paula Lavigne ofereceu para Mick Jagger em 2016; como não é boba, cantou e encantou o público seleto com “Vou deitar e rolar”, sucesso da musa Elis Regina (“Adoro o drama que ela colocava na interpretação”). Depois, emplacou “Só eu e você” (de Chico César) na trilha da novela “Sol nascente” e apareceu na lista de apostas de 2017 elaborada pelo Google Play com base em dados da rede.

Nesse movimento de conhecer e se tornar conhecida, criou a websérie “Illy e a MPB de todos os sons”, em que canta com nomes novos e consagrados (como Caetano), geralmente na sala do seu apartamento, em Ipanema. O prédio na Nascimento Silva é um capítulo à parte: ex-endereço de Maria Gadú, lá vivem o violonista Cézar Mendes (dos Tribalistas) e o sambista Mosquito — até o rapper Mano Brown passou por lá esses dias. Illy comenta:

— É uma convivência produtiva, tanto que muitos vizinhos e amigos deles foram parar no disco novo.

Com faixas produzidas em 2016 por Alexandre Kassin, “Voo longe” está sendo finalizado por Moreno Veloso. Perfeccionista como Illy, Moreno fala como é trabalhar com a cantora:

— É prazeroso por sua pessoa, ao mesmo tempo tranquila e estudiosa, doce e segura. Ela sabe onde está e de onde veio.

Antes do disco ainda tem a estreia do clipe de “Afrouxa”, gravado em pleno carnaval de Salvador e repleto de beijos — duplos, triplos, gays.

— Gosto que meu trabalho fale de diversidade, acho bem legal as mulheres se unirem contra assédio. Estou com a maioria das causas. Mas não sou de textão. Falo pelas músicas que canto.

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