SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando Dorival Caymmi morreu, em agosto de 2008, o jornal A Tarde, de Salvador, deu o título "Adeus ao Buda Nagô". Era uma referência à música de Gilberto Gil, que celebra um de seus mestres. "Como príncipe, principiou / A nova idade de ouro da canção / Mas um dia Xangô / Deu-lhe a iluminação". Versos depois, Gil canta: "Dorival é um monge chinês / Nascido na Roma negra, Salvador". São esses temas, transformados em poesia por Gil, que o documentário "Dorivando Saravá, o Preto que Virou Mar" se propõe a abordar: a presença da cultura afro-brasileiras na obra de Caymmi; a espiritualidade fortemente ligada aos fenômenos da natureza a conduzir suas canções; a condição de homem negro nascido e criado nessa Roma dos trópicos, negra e racista. Um das atrações do festival In-Edit Brasil, o filme dirigido por Henrique Dantas vai muito bem quando, de fato, se concentra nessa temática da negritude e se atém a um certo rigor estético. São emocionantes as interpretações de "Dora" por Mateus Aleluia e "Sargaço Mar", com Marina de La Riva. Mas talvez o grande momento musical seja "A Jangada Voltou Só" na voz e no violão de Lucas Santtana. Nenhum dos cantores rouba, no entanto, o protagonismo do mar, que aparece em imagens captadas com sensibilidade pela equipe de Dantas. Não é um mar qualquer, é a natureza capaz de levar à transcendência. Ouve-se um gravação antiga em que Caymmi fala do candomblé como uma religião que estimula as pessoas a "cultuar a criação, não o criador". Ao longo do documentário, o registro das ondas quebrando na praia e as imagens antigas dos pescadores comentam a espiritualidade do compositor. Responsável pelos depoimentos mais comoventes do filme, Gil lembra como a morte representa o fim e o recomeço nas músicas de Caymmi, que foi filho de santo de Mãe Menininha do Gantois. Pena que "Dorivando" se esqueça em diversos momentos de um dos legados do Buda Nagô, a busca pela arte em sua essência, o que implica despojamento e rejeição de adereços -ou balangandãs, como diria Caymmi. Um exemplo: o diretor convida os participantes do filme a conjugar o verbo "dorivar", uma brincadeira tola que não leva a lugar algum. Outro: também pede que eles leiam cartas escritas por Caymmi para amigos. Os textos são tocantes ou divertidos, mas perdem parte desse lirismo com a confusa sobreposição de vozes. O foco se esvai com efeitos, assim como acontece ao abordar questões políticas, assunto secundário na vida e na obra de Caymmi, como ele mesmo admitia. "Dorivando" é um bom filme quando mais contido, perde-se, porém, em penduricalhos estéticos e temáticos. Faltou atenção aos versos de uma música composta há mais de 70 anos: "Não pinte esse rosto que eu gosto / Que eu gosto e que é só meu / Marina, você já é bonita / Com o que Deus lhe deu". DORIVANDO SARAVÁ, O PRETO QUE VIROU MAR Direção Henrique Dantas Quando 10/9 até 13/9 (Plataforma In-Edit Brasil); 15/9 até 16/9 (Plataforma Sesc Digital); 18/9 até 20/9 (Plataforma In-Edit Brasil) Preço R$ 3 (Plataforma In-Edit Brasil); grátis (Plataforma Sesc Digital) Avaliação Bom



