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Eunice Paiva de 'Ainda Estou Aqui' teve figurino adaptado para ficar menos sofisticado

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O retrato de Eunice Paiva feito por Fernanda Torres no filme "Ainda Estou Aqui" quase teve figurinos opulentos. Mas o diretor Walter Salles, que mirava uma interpretação contida para a protagonista do seu drama, mudou a rota e pediu que a equipe reformulasse as ideias até atingir um estilo singelo.

Eunice de início pareceria uma versão brasileira de Jacqueline Kennedy Onassis, ex-primeira-dama dos Estados Unidos, conhecida por usar roupas elegantes e formais, além de colares requintados.

O primeiro catálogo de referências para a personagem agrupava ainda imagens das escritoras americanas Anne Sexton e Joan Didion e da modelo francesa Eva Green, além de poucas fotos da própria Eunice, que foi advogada, mãe de cinco filhos e perdeu o marido, Rubens Paiva, para a ditadura militar.

"Estava rígido demais, tinha muito vestido colado", lembra a figurinista do filme, Claudia Kopke. "Até existem fotos da Eunice com roupas assim, mais formais, mas é de uma vez que ela visitou Brasília, quando Rubens ainda era deputado. Não fazia sentido com o momento em que o filme se passa, em 1971. Aí fomos para uma coisa mais relaxada, caseira."

Inspirar-se nos looks de escritoras foi a forma encontrada pela equipe para imaginar como se portaria uma mulher brasileira de classe média, que morou no Rio de Janeiro, à beira da praia, e passava boa parte do tempo em casa. "Essas autoras ficavam o tempo todo sentadas em frente à máquina de escrever", diz Kopke, lembrando que a própria Eunice aparece escrevendo em uma dessas máquinas, ao final do filme.

Torres foi elogiada pela forma comedida com que dá vida ao drama de Eunice, que teve de aprender a criar os filhos sozinha quando o marido foi sequestrado e morto. Assim, Kopke considerou que, para o figurino, menos também era mais.

Isso não a impediu, no entanto, de fazer da roupa uma mensagem. Na cena em que posa para uma foto de revista e diz que vai sorrir, não importa o que o jornalista queira, ela veste uma camisa azul, sem manga, por dentro de uma calça branca de cintura alta. No pescoço, pendura vários colares. "A gente sabia que a Eunice tinha aquele tipo de camisa, com golinha, que dá uma pequena formalidade", diz Kopke.

Eunice faz algo parecido quando é levada por policiais para depor sobre o marido. Ela se arruma de forma formal e protetiva, com camisa de manga comprida, porque sabe que vai para um lugar ruim, possivelmente violento e até sujo. Por causa disso, também, a personagem indica que roupa sua filha deve usar —uma calça, não um short ou uma saia.

"Ainda Estou Aqui" se passa quase todo em 1971, antes de avançar algumas décadas para seu encerramento. Para reconstruir essa época, Kopke recorreu às próprias lembranças de adolescência —ela nasceu em 1959. Seu desafio, diz, foi reimaginar a década sem esquecer dos anos 1960, que tinham acabado há pouco, mas ainda marcavam a moda.

A figurinista deu entrevista em meio aos preparativos para uma viagem até Los Angeles, onde ocorre o Oscar neste domingo, com "Ainda Estou Aqui" na disputa por três estatuetas —as de de melhor filme, atriz e filme internacional.

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