RIO - É oficial: o Rock in Rio começa daqui a um mês, no dia 15 de setembro. Nada surpreendente aí. Difícil é acreditar no que diz uma voz ao telefone, de Los Angeles, com um característico sotaque britânico.
- Finalmente vamos tocar no festival - diz o guitarrista Phil Collen, do quinteto Def Leppard. - Há muitos anos estamos tentando, e agora conseguimos, no momento perfeito.
O tradicional discurso animadão, "amamos o Brasil", etc, é de se esperar, mas o caso do DL é, no mínimo diferente: a banda estava confirmada na primeira edição do festival, em 1985, mas acabou cancelando sua vinda cerca de um mês antes, por causa das gravações de um disco. No dia 31 de dezembro de 1984, o baterista Rick Allen sofreu um acidente de carro perto da cidade natal da banda, Sheffield, na Inglaterra, e perdeu o braço esquerdo. Naqueles tempos pré-internet, ficou consagrada a versão de que a banda teria deixado de vir por causa do acidente - eles foram substituídos pelos conterrâneos do Whitesnake -, mas o motivo foi "Hysteria", disco produzido pelo lendário Robert John "Mutt" Lange (AC/DC, Foreigner, Tina Turner, Maroon 5). Ele só seria lançado em 1987, três anos após o início das gravações, mas valeu a pena: foi o mais vendido da história do Def Leppard, com mais de 25 milhões de cópias por todo o mundo e sucessos como "Pour some sugar on me", "Animal" e "Love bites" - sim, aquela mesma, vertida para o português como "Mordida de amor" pelo glorioso Yahoo.
- Quando Rick sofreu o acidente, já tínhamos começado a gravar o disco - lembra Collen. - Diferentemente de muitas bandas, nós sempre deixamos a bateria para o fim. Isso acabou sendo uma sorte, porque deu tempo de ele se recuperar e reaprender a tocar (o baterista adaptou seu instrumento para passar a usar as pernas de formas diferentes, e toca com apenas um braço há 30 anos). De qualquer forma, ficamos anos no estúdio, e teríamos esperado por ele o tempo que fosse preciso.
Se "Hysteria" foi lançado em 1987, é claro que o Def Leppard está na estrada comemorando seus 30 anos.
- Muita gente nos pede para tocarmos o disco na íntegra, mas acho que isso ocuparia praticamente todo o nosso tempo de show - analisa ele, lembrando que o Def Leppard não é a atração principal da noite de 21 desetembro, escalado para tocar antes do Aerosmith. - Vamos tentar montar um setlist que tenha um pouco de tudo, sucessos, novidades e velharias.
"Hysteria" foi o maior e o último grande sucesso do DL - e demandou paciência, pois as vendas só começaram a bombar um ano após o lançamento -, que mais tarde lançou discos como "Adrenalize" (1992) e "X" (2002), mas jamais voltou àquele patamar de popularidade.
- A vida é assim mesmo, e não podemos nos queixar - diz Collen. - O importante é você nunca desistir e saber se adaptar. Já sobrevivemos a duas tragédias (além do desastre de Allen, o guitarrista Steve Clark morreu em decorrência do alcoolismo, em 1991, aos 30 anos). Estamos sempre em turnê, tocando nossas músicas, não paramos nunca. Você tem que se esforçar o tempo todo. Até Mike Tyson, que era o melhor no que fazia, um dia parou de treinar e acabou derrotado.
O Def Leppard veio apenas uma vez ao Brasil, em 1997, e a lembrança da apresentação no Rio não é das melhores.
- Tinha umas 100 pessoas lá! - lembra o guitarrista, rindo. - Não sei o que houve, se foi a época do mês, ou do ano, ou se não éramos muito conhecidos. Quando essas coisas acontecem, sempre tentamos fazer o melhor show possível, para que aquelas poucas pessoas se sintam prestigiadas. Acho que conseguimos, e o público também estava ótimo. Agora vamos dar um pulo de uns 100 para uns 100 mil, né?
Aos 59 anos, Collen (o segundo a partir da esquerda na foto acima) se mantém em boa forma com veganismo, a prática de artes marciais ("há poucos dias tomei um açaí com os brasileiros que ensinam jiu-jítsu aqui na minha vizinhança", diz) e muitas atividades musicais.
- Não se pode parar nunca - decreta. - Acabei de chegar da G4 Experience, um encontro de guitarristas promovido por Joe Satriani, em que fui um dos convidados. Foi espetacular! O Def Leppard tem material gravado para um disco ao vivo, e estamos compondo para o próximo trabalho de carreira. E ainda tenho os meus outros projetos musicais, como uma banda em que Joe (Elliott, cantor do DL) e eu tocamos músicas de David Bowie, e outras. Ah! E acabei de produzir o disco novo do Tesla, sabe quem são? Ah, eles vão tocar no Brasil no fim do ano? Que ótimo!




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