RIO — Há um ano e meio, o Teatro Municipal ganhou novo presidente: o compositor João Guilherme Ripper assumiu a casa e revitalizou suas atividades. Em 2016, realizou oito óperas, cinco balés e inaugurou uma academia de canto. No entanto, o ano acabou numa toada trágica: devido à crise do governo estadual, os artistas e técnicos não recebem salários desde novembro, fizeram paralisação e só aceitaram encenar o balé “O quebra-nozes”, no mês passado, em respeito ao público. Na penúria, receberam uma centena de cestas básicas doada por uma espectadora compadecida. Embora não tenha anunciado uma temporada para 2017, Ripper promete que haverá espetáculos tão logo a questão salarial seja resolvida.
Não estamos anunciando nada por conta dessa indefinição do próprio estado. Dependendo da situação, poderemos anunciar títulos por trimestre ou por bimestre. Mas, enquanto a situação dos servidores não for definida, não tenho condição de falar sobre temporada, nem datas, nem títulos.
É claro que nós temos várias alternativas, vários cenários diferentes sendo analisados. Qualquer tipo de montagem exige convites, e convites só podem acontecer se você tem datas, e datas dependem da questão dos salários ser resolvida. Um título demanda um período de ensaios e um período de realização, e isso requer uma confluência de agendas, e só se consegue isso a partir do momento em que eu tenho certeza da disponibilidade dos corpos estáveis do Teatro Municipal. Os salários de novembro ainda não foram pagos. Apenas duas parcelas foram pagas por enquanto. Os salários de dezembro tampouco foram pagos, nem 13º e nem férias.
Não... Para preparar um concerto, demora muito menos do que para preparar um balé. Então, depende de quando isso for regularizado. Consigo levantar um concerto em uma semana, mas não consigo levantar um balé em menos de um mês. Para uma ópera, preciso de três semanas a um mês.
Eu tenho vários cenários, várias possibilidades, que dependem de quando essa regularização ocorrer. Mas não adianta eu anunciar algo agora, porque criará uma expectativa com zero certeza de se realizar. Os serviços básicos do teatro estão funcionando. Existe uma paralisação, mas os funcionários dos setores administrativo e técnico estão trabalhando em forma de revezamento. O teatro não está fechado.
Negativo. Se quando eu assumi (a presidência da Fundação Theatro Municipal), em junho de 2015, não havia nada planejado, e consegui levantar cinco óperas (em um semestre), não vai ser com um ano inteiro pela frente que não conseguirei fazer (espetáculos). Eu estou confiante de que o governo do estado vai regularizar a situação dos salários. Não necessariamente que vai pagar tudo de uma vez, mas que, se for feito um parcelamento, haja previsão dos depósitos para que as pessoas possam se organizar. E aí vamos contar com a volta de todos ao trabalho e vamos disparar imediatamente a temporada.
Eu não tenho problema de dinheiro para fazer montagens. A questão é outra. Eu não tenho como fazer uma programação com os artistas paralisados...
Tenho vários cenários com tudo amarrado. Os solistas estão consultados, reservaram datas, mas não estão confirmados. Claro que pode acontecer de um ou outro receber algum convite em datas coincidentes para um espetáculo de outro lugar e aceitá-lo, já que as datas do Municipal não estão confirmadas. Esse é um risco que corremos.
Estamos buscando patrocínios: alguns estão confirmados, outros nem tanto. Em breve poderei anunciá-los, quando os contratos estiverem assinados. Estamos com vários engatilhados. Neste ano ficaremos até mais confortáveis do que no ano passado. Teremos mais patrocinadores e uma verba dividida de forma mais equânime entre eles. Ano passado, tivemos um patrocínio que salvou a temporada, o da Sicpa Brasil. Quero que o teatro seja cada vez mais autossustentável. Ano passado, 90% da temporada artística foram financiados com patrocínios e receitas próprias do teatro (bilheteria e aluguel do espaço). O objetivo é chegar a 100% e até fazer com que o teatro gere recursos para a sua manutenção.
Não. O estatuto do funcionalismo público veta isso.
?
Não posso dizer porque não me foi anunciado ainda. E depende da temporada que eu tiver na mão. Estamos vivendo um momento complicado. Mas quero ressaltar que o ano passado foi brilhante, como há muito tempo o teatro não via. Fizemos oito óperas, quando a média dos últimos 25 anos vinha sendo de três a quatro. Nós fizemos cinco balés. Só cancelamos a ópera “O barbeiro de Sevilha”, mudamos um título de balé e adiamos “Jenufa”. Todo o resto foi realizado. Não posso deixar de reconhecer o esforço dos patrocinadores e sobretudo dos corpos artísticos, que trabalharam intensamente para fazer uma temporada como há muito tempo não havia. Existe um déficit de mão de obra na área técnica, e a equipe técnica virou noites para fazer os cenários e figurinos, e deu tudo certo.
Não sei dizer. A princípio, estou contando que vai dar tempo de fazer em março. Se não der, vou buscar outra data.
Não. Ela será feita certamente este ano. É uma ópera natalina, ficou para o Natal de 2017.

