SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - À frente de um órgão de pouca expressão política e pouco orçamento do governo, Sérgio Camargo tornou a Fundação Cultural Palmares uma das repartições mais conhecidas da Secretaria Especial da Cultura --não pelas ações concretas que o político tenha tomado, mas por suas polêmicas e pelas denúncias que levou ao longo de seu mandato, que se encerrou nesta quinta (31).
Exonerado do órgão para concorrer ao cargo de deputado federal por São Paulo nas eleições de outubro, Camargo chegou à Fundação Cultural Palmares em novembro de 2019. Ele se autodefinia como "negro de direita, contrário ao vitimismo e ao politicamente correto", e sua gestão foi marcada pela luta contra pautas políticas do movimento negro.
De tentativas de mudar o nome da fundação para Princesa Isabel até o banimento de livros de autores de esquerda do acervo da fundação, veja os momentos marcantes da gestão de Camargo na Fundação Cultural Palmares.
Desde quando assumiu o cargo, Sérgio Camargo deixou claro que era contrário à personalidade que dá o nome à fundação, o líder quilombola Zumbi dos Palmares. Ele apresentou a proposta de mudar o nome da instituição assim que foi convidado para assumir sua presidência, em 2019.
Em uma publicação no Twitter em janeiro deste ano, ele comentou essa sua vontade. "Não faz sentido homenagear Zumbi [dos Palmares], um líder tirano e escravocrata", escreveu ele, acrescentando ainda que, se essa alteração dependesse somente de si, já teria sido feita "na base da canetada". Para fazê-lo, no entanto, Camargo precisaria de chancelas de outros órgãos federais, como a Câmara dos Deputados, e o projeto não foi levado a cabo.
Constantemente criticado por Camargo, Zumbi liderou o quilombo de Palmares, o maior do eixo afro-atlântico, na antiga capitania de Pernambuco, na segunda metade do século 17.
Em agosto de 2021, o Ministério Público do Trabalho pediu o afastamento de Sérgio Camargo da Fundação Palmares após por denúncias de assédio moral, perseguição ideológica e discriminação contra funcionários da instituição.
Segundo a denúncia, funcionários do órgão relataram que havia um clima de terror psicológico no ambiente da fundação, uma vez que Camargo perseguia aqueles que denominava "esquerdistas". Além disso, funcionários do órgão disseram que Camargo associa pessoas de "cabelos altos" a malandros.
Com a medida do Ministério Público do Trabalho, ele ficou proibido de nomear e exonerar servidores, bem como de intimidar trabalhadores nas redes sociais suas ou da Palmares, mas se manteve à frente do órgão.
Em fevereiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes determinou que a Justiça Federal, e não a do Trabalho, analise a ação civil pública contra Camargo.

