Quase 14 anos após sua morte, em 2003, Itamar Assumpção segue cada vez mais necessário para desconcertar a fisionomia da música popular brasileira. A importância do autor de “Nego Dito” e a demanda por relançamentos, shows e tributos mantiveram sua banda, Isca de Polícia, positiva e operante. Este “Isca — Volume I” chega após longa gestação, fruto do necessário cuidado para honrar o finado band leader em um repertório relevante.
A batuta do baixista e produtor Paulo Lepetit mantém a alma sonora dos discos de Itamar, sem trair o chefão em antiexperimentos ou reinvenções. Vanguarda paulista como processo não rola aqui, até porque o som — que hoje, ironicamente, já pode reivindicar o status de vintage — permanece contemporâneo sem fazer força.
No círculo expandido de parceiros, cabem tanto um Tom Zé na linha reggae “desossado” (“Itamargou”) quanto um Zeca Baleiro de surpreendente encaixe, “É o que temos, é o melhor”. “Você não sabe como é que vai (...) Pensa, pensa, pensa e nada faz/ Nem samba-jazz nem afrobeat ou rock’n’roll”, alfineta a letra da faixa, que conta com a participação do próprio Baleiro.
A propósito, a canção inicial do disco, “Arisca”, um Péricles Cavalcanti de boa cepa, captura de cara o samba torto que tantos artistas mais novos perseguem sem conseguir sequer cercar. Arnaldo Antunes aparece bem como parceiro de Lepetit em duas músicas (“Dentro fora” e “Xis”) e ajuda os guitarristas Jean Trad, único remanescente do primeiro disco de Itamar, e Luiz Chagas a soltar seus demônios.
O rock é referência periférica na ótima “Atração pelo Diabo”, que termina lembrando um clássico dos Stones. A letra de Carlos Rennó sairia com naturalidade da garganta de Itamar, e esse parece ter sido o norte da seleção das composições. Humildemente, é claro, pois, como lembra “As chuteiras do Itamar” (parceria de Lepetit e Vange Milliet com o pernambucano Ortinho), “o que eu queria era ter feito uma canção que amarrasse as chuteiras do Itamar”.

