'The Boys in the Band' disseca angústias do que era ser gay na era pré-Stonewall 'The Boys in the Band' disseca angústias do que era ser gay na era pré-Stonewall

'The Boys in the Band' disseca angústias do que era ser gay na era pré-Stonewall

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

28/09/2020 16h03 — em Arte e Cultura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Oito homens gays se reúnem para uma festa de aniversário, em que discutem seus amores, prazeres e frustrações. A cena pode ser corriqueira na vida real e também para um filme lançado nos dias de hoje. Mas, em 1968, quando ela foi criada, essa aparente simplicidade tinha um peso enorme.

Escrita por Mart Crowley, "The Boys in the Band" é uma peça americana que se firmou como um dos produtos culturais pioneiros no retrato da homossexualidade de forma naturalizada e sem julgamentos. Dois anos depois, a trama virou filme e repetiu no cinema o ineditismo que já havia alcançado no teatro, pelas mãos de William Friedkin.

Agora, "The Boys in the Band" ganha uma nova leitura, com atualizações nas entrelinhas, para tempos em que a homossexualidade convive livre e diariamente com as pessoas em boa parte do mundo.

Dirigido pelo ator-diretor Joe Mantello e produzido por Ryan Murphy, o longa estreia na Netflix nesta quarta-feira e, neste caso também, dois anos depois de uma montagem da peça, agora na Broadway, vencedora do Tony de melhor revival.

"Eu vi o filme original pela primeira vez no início da faculdade de artes cênicas. Eu havia acabado de me assumir, eu deixei de estar muito fundo no armário para ser livremente gay em questão de um ano. Então eu assisti ao filme e o homem gay em mim o achou aterrorizante, mas o meu lado ator o achou incrível", diz Mantello, que também comandou a montagem da Broadway, por videoconferência.

O pavor inicial que ele sentiu ainda jovem, ao descobrir "The Boys in the Band", tem muita relação com a maneira como a peça e o filme originais foram recebidos pela comunidade gay. Se, por um lado, as obras eram um aceno sincero e bem-intencionado a ela, por outro, escancaravam os problemas trazidos pela marginalização de ser gay na Nova York dos anos 1960 --e para isso se apoiavam em personagens que não gostavam de sua homossexualidade.

"Hoje nós temos o luxo de olhar para a trama a partir de uma perspectiva histórica. Nós sabemos que um ano depois da estreia da peça Stonewall aconteceria", ele diz, lembrando a revolta no bar de Nova York que detonou o movimento por direitos LGBT nos Estados Unidos. "Então hoje nós podemos contextualizar a raiva e a aversão que estão borbulhando na sala onde a história se passa. Eu acho que, quando a peça e o filme originais saíram, as pessoas não tinham essa visão, então de fato eles pareciam muito desoladores."

Os personagens da peça se reúnem no apartamento de Michael, que mais tarde naquela noite recebe a visita inesperada de um colega da faculdade, que não sabe de sua homossexualidade. Michael faz de tudo para esconder esse seu lado, aflorando os nervos de todos e causando uma explosão de angústias e sentimentos reprimidos por ele.

"Ele é uma pessoa que não consegue se aceitar totalmente e, enquanto ele não amar quem é, ninguém vai poder o amar", diz Jim Parsons, que viveu o personagem na Broadway e no longa. "Stonewall aconteceu entre a peça e o filme originais, e, com essa nova onda de aceitação que surgiu, eles receberam algumas críticas negativas da comunidade gay, que não queria ser representada daquela maneira, sem amor próprio. Eu entendo isso e acho que nós avançamos tanto que hoje podemos olhar para a história de uma forma diferente."

Seu colega de elenco de palco e de tela, Zachary Quinto, concorda. "O que aconteceu foi que o Mark Crowley capturou um momento muito específico na história sem saber que o estava fazendo. Esse é o último vislumbre de um tempo em que os gays eram isolados, alienados, marginalizados, perseguidos e processados pelo que eram, e isso estava prestes a mudar drasticamente."

O olhar diferente que surge nesta releitura é sutil. Os diálogos e as dinâmicas entre os personagens do filme de 1970 e desta nova versão são praticamente iguais. Segundo Mantello, o diretor, não havia motivo para fazer uma ampla atualização --o que realmente importa é a maneira como os gays e a sociedade no geral se relacionam com a trama 50 anos depois.

"Essa é uma história específica, de um tempo específico. Se fizéssemos algum tipo de atualização, isso afetaria todo o funcionamento daquele grupo. Por outro lado, na versão do Friedkin, que é hétero, você tinha metade do elenco formado por homossexuais, mas que tinham que ficar no armário. Agora, nós olhamos para 'The Boys in the Band' como um grupo total e abertamente gay --elenco, direção e produção-- e vemos como isso afeta o material", afirma o diretor.

"Ainda há muito progresso a ser feito, mas estamos em um mundo diferente. Se esses homens estivessem vivendo em Nova York este ano --quer dizer, em qualquer ano recente e sem uma pandemia--, eles teriam muito mais facilidade para sonharem, aceitarem o amor, serem felizes e serem pessoas mais saudáveis", acrescenta Parsons.

Também repetindo o papel da Broadway nesta nova versão cinematográfica, Matt Bomer diz que chegou a se encontrar com William Friedkin quando foi convidado para integrar o elenco. Mesmo que o cineasta não seja homossexual, deu ao ator "ótimas visões do que estava acontecendo nos Estados Unidos" na época do lançamento do primeiro longa.

"Mesmo hoje 'The Boys in the Band' não pode deixar de ser uma peça política. Não há como ver essas histórias, principalmente nos anos 1960 e 1970, e não perceber que aqueles homens estão sofrendo por causa da opressão, não pensar que algo precisa mudar. Esses homens estão condenados a repetir aquela noite para sempre até que algo mude. Então é importante entender de onde nós, enquanto homossexuais, viemos e o quão longe chegamos", diz Bomer.

Quem estiver familiarizado com o filme de 1970 vai perceber que, de fato, os novos tempos e a equipe quase toda gay da produção dão certo frescor à fatídica e desastrosa noite na qual a história se passa. Mantello reluta em dizer que essa é uma visão mais positiva do futuro que aguarda aqueles personagens, mas destaca que seria impossível o filme não refletir os tempos menos hostis e mais inclusivos de agora.

"Eu acredito que essa peça é um clássico americano e eu acho --e espero-- que em 50 anos outro grupo de artistas possa olhar para ela pelas lentes do novo mundo que estará existindo até lá."

THE BOYS IN THE BAND

Quando: Estreia nesta quarta (30) na Netflix

Classificação: 16 anos

Elenco: Jim Parsons, Zachary Quinto e Matt Bomer

Produção: EUA, 2020

Direção: Joe Mantello

+ Arte e Cultura