SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As curadoras responsáveis pelo núcleo "Retomadas", da exposição "Histórias Brasileiras", do Masp, que havia sido cancelado após o museu vetar fotos do MST e de movimentos indígenas, aceitaram a proposta da instituição de retomar o projeto na mostra.
O museu voltou atrás na semana passada após enfrentar acusações de censura por ter vetado um conjunto de fotos de André Vilaron, Edgar Kanaykõ Xakriabá e João Zinclar. Propôs em nota pública às curadoras que a exposição "Histórias Brasileiras" --a maior deste ano no Masp--, mudasse a data de abertura, para que as imagens pudessem ser incluídas, e também propôs incorporar ao seu acervo as referidas imagens.
A instituição e seus funcionários negaram as acusações de censura, e alegaram repetidas vezes que o veto se deu devido às curadoras, Sandra Benites e Clarissa Diniz, terem pedido que as fotos fossem incluídas na mostra já fora do prazo. Elas afirmam que nunca foram informadas de tais prazos e que cumpriram as diretrizes do museu na produção da exposição.
Em carta encaminhada a instituição nesta quinta-feira (26), as curadoras afirmam que aceitam a proposta do museu com a permanência das fotografias de Vilaron, Xakriabá e Zinclar. Elas propõe, no entanto, mudanças na condução do núcleo, como nos direitos autorais envolvidos na mostra e na ampliação da gratuidade de entrada no museu.
Os fotógrafos não aceitaram que suas imagens sejam incorporadas ao acervo do Masp. Os três artistas propõem que a instituição, ao invés de adquirir as obras, faça impressões das fotos em tamanho de pôster e distribua o material gratuitamente para os visitantes de "Histórias Brasileiras".
Na carta, as curadoras dizem ainda ter recebido com satisfação a nota publicada pelo Masp e o gesto do museu em reconhecer suas falhas na relação com elas durante o processo de produção da mostra.
Elas também chamam a atenção para a ausência, no comunicado do museu, de uma menção ao pedido de demissão da curadora Sandra Benites, que dizem ter sido a "maior das consequências diretas" do veto ao conjunto de fotografias.
"A inexistência de uma reposta à saída da curadora --tanto na nota, quanto nas tratativas institucionais (posto que até o momento não houve retorno do Museu à sua carta de demissão) --é um alerta acerca dos apagamentos insistentemente perpetrados pelas políticas do Masp", acrescenta a carta.
ENTENDA O CASO
O Masp, principal museu do país, enfrenta uma crise após o cancelamento de um evento de lançamento de livro do Guilherme Boulos, do PSOL, e depois da decisão de duas curadoras de cancelarem um núcleo da maior mostra do ano na instituição, "Histórias Brasileiras".
Foi no começo deste mês que Sandra Benites, curadora-adjunta que acaba de pedir demissão após o caso, e Clarissa Diniz, curadora convidada da instituição, informaram que cancelariam o núcleo denominado "Retomadas". O motivo, segundo elas, foi um veto do museu a um conjunto de fotos do MST que constituiria o cerne deste núcleo.
O museu afirma ter recebido a relação desse material da curadoria com pouco menos de três meses de antecedência da abertura da mostra, prevista para julho, o que extrapola os prazos para a execução de procedimentos como a solicitação do empréstimo das fotos e a cessão do uso de imagens. Também nega que a ação seja censura de conteúdo.
Já as curadoras afirmam que não foram informadas sobre essa data máxima definida pela instituição. Num email enviado aos artistas comunicando o cancelamento do núcleo, elas disseram que "apesar do cuidadoso trabalho realizado, para a nossa surpresa, o Masp não concordou com a integral inclusão da representação das 'Retomadas' pelo suposto descumprimento de um prazo que não nos foi informado pela produção ou pela curadoria do museu".

