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Saúde e Bem-estar

Precisamos recuperar a capacidade de prever o futuro, diz neurocientista

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PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Sonhos funcionam como uma expectativa do futuro e, se não sonhamos, não conseguimos nos programar para tempestades no horizonte. Mas no Ocidente já quase não se sonha --e isso pode explicar boa parte dos problemas contemporâneos.

É o que defendeu o neurocientista Sidarta Ribeiro, em apresentação mediada pelo jornalista Ronaldo José Lopes neste sábado (13), na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty): "A gente precisa urgentemente recobrar a capacidade de prever o futuro."

"Do paleolítico até o ano 1500, a gente teve o sonho no centro da vida social, no centro da vida política. E aí a gente resolveu tirar o sonho de cena, no Ocidente", afirmou o autor de "O Oráculo da Noite". "Hoje em dia tá todo mundo nessa de não sonha, não lembra que sonha e não dorme direito."

"Será que os grandes problemas do planeta não tem justamente a ver com a nossa incapacidade de simular o que está acontecendo no futuro, o que está vindo, o desastre que se avizinha?", afirmou ele.

A mesa, originalmente, traria o também neurocientista Stuart Firestein, que precisou cancelar sua vinda ao Brasil por problemas de saúde. Ribeiro, que foi chamado no começo do mês para substituir o americano, não desanimou o público. Com a plateia cativa pela sua oratória, o pesquisador traduziu temas complexos da filosofia, psicanálise, evolução e neurociência.

Pesquisador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Ribeiro apresentou seu novo livro, traçando um histórico que passou pela formação da Terra, há 4 bilhões de anos; surgimento dos primeiros seres unicelulares, há 580 milhões de anos (de onde vieram os primeiros neurotransmissores); chegada dos insetos, há 400 milhões de anos (com suas capacidades de dormir e de acumular sono do dia anterior); e surgimento dos primeiros mamíferos, com capacidade de sono REM e que também faziam brincadeiras uns com os outros --"jogar é sonhar acordado", disse. 

Na contemporaneidade, Ribeiro falou sobre como as telas de computadores e celulares nos atrapalham a dormir. "Do mesmo jeito que a gente é capaz de expropriar a terra e as pessoas, a gente expropria a si mesmo, a gente tira o próprio sono. E isso gera uma série de doenças, diabetes, depressão e eventualmente o alzheimer", afirmou.

Se é preciso recuperar a capacidade de prever o futuro, Sidarta já dá alguns palpites (não muito motivadores): a possibilidade de a robotização excessiva do mundo gerar uma massa de miseráveis. "Os robôs vão fazer o trabalho de todo mundo. A gente tá a um passo de ficar muito bem e tá a um passo de ficar muito mal, porque os empregos vão desaparecer. Se a gente permitir que os robôs façam o trabalho das pessoas e elas fiquem sem trabalho e sem dinheiro, acabou, gente. Na hora que o primeiro robô comer o primeiro hambúrguer e começar a consumir, acabou. A gente é carta fora do baralho. E tá mais perto do que a gente pensa."

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