conseguiram ser mais espertos do que as raposas políticas do Amazonas.
Por Dionysio Paixão – Advogado e Procurador do Município de Manaus.
Em tudo na vida, há um desfecho, um fim, uma conclusão. A morte de Wallace Souza, longe de encerrar a polêmica que o envolveu em vida, transmutando-o de “herói” de um segmento da sociedade a “bandido” previamente condenado pela força midiática utilizada pelas autoridades com obrigação de investigar e punir ilícitos, a rigor reaviva dúvidas e reflexões sobre o cadáver ainda frio daquele que foi um dos deputados estaduais mais votados da história do Amazonas.
Wallace Souza foi “bajulado” por todos os “caciques” da política local ao longo de diversas eleições, para dele receber o apoio que de fato pelo menos nas ultimas dez disputas, quer para o cargo de Prefeito, seja para o de Governador do Estado, realmente fizeram a diferença. E disto ninguém que tenha um mínimo de inteligência, duvida.
O assédio a Wallace e ao seu grupo político se fazia em condições de verdadeiro “leilão”, como em certa ocasião me foi confidenciado por certo ex-governador, que quando tentava galgar espaço político entre os grandes, aparentava ser a redenção para o povo humilde e sofrido, mas que acabou enganando aos que nele acreditaram, e a si próprio, em ultima instância, como o tempo e a vida revelarão.
Ora, quantas vezes Wallace e seu grupo apoiaram candidatos que acabaram por saírem-se vitoriosos em campanhas majoritárias, e ninguém percebia que logo mais a frente era-lhes “tirado do ar” os tais “programas televisivos populares”, com base nos quais fizeram ele e seus irmãos, suas respectivas plataformas de poder!?
Nesse jogo de afagar e bater, Wallace e seu grupo não conseguiram ser mais espertos do que as raposas políticas do Amazonas.
E quando a ambição desmedida assenhoreou-se do poder, escreveu no primeiro momento da posse o destino desse grupo político, animado por coincidências e tramas, realmente articuladas brilhantemente.
Aquilo que nós e muitos outros cidadãos alertávamos estar ocorrendo no Amazonas, ou seja, o “Estado Policialesco”, se por um lado acabou revelando que Wallace e seu grupo político não eram “santos” e tampouco “heróis” – e quem os é na política local? – descortinou também, um aspecto sociológico dos mais importantes e que precisa ser pensado pela sociedade: o perigo de colocar o comando político da polícia, do ministério público e até da Justiça, nas mãos de quem não mede seus atos pelo temor de Deus e controla as nomeações dos dirigentes dessas instituições, a liberação de orçamentos, de verbas e quejandos, para atender demandas sempre crescentes e inadiáveis que só a concentração de poder e dinheiro no Poder Executivo têm o condão de resolver.
Todos dependem do Governador de ocasião, neste Estado, e na atual conformação política e constitucional que se estabeleceu no País.
Não à toa, Arthur Virgílio, que também recebeu apoio eleitoral de Wallace em sua eleição última, num rasgo de lucidez pouco própria dos políticos, em embate passado no Tribunal de Justiça, criticou duramente o atrelamento do Presidente do Judiciário amazonense aos caprichos do então Governador do Amazonas.
Investigar, provar e punir ilícitos, como disse acima, é dever das autoridades. Mas no chamado “caso Wallace”, tudo foi muito além do que é normal se ver na atuação dos agentes estatais.
Desde o uso indevido da mídia para provocar na opinião pública um clamor de indignação contra os “supostos criminosos”, o que se conhece por “condenar por antecipação”, até o fato de relacionarem a confissão de um “traficante de igarapé”, como coisa séria, a ligar Wallace e seu grupo por conta de “suposta” “mesada” paga a produtores do programa que comandava.
Aliás, os programas de Wallace e seus irmãos, são um caso a parte.
TOTALMENTE INCENTIVADOS pelas próprias autoridades Estaduais que depois lhe viraram as costas, quando por acasos, defeitos ou pecados, nele e em seu grupo resolveram investir pesadamente o aparelho de investigação política e policial do Estado para descobrir qualquer coisa, o que quer que fosse, que permitisse o valioso “controle” do poder de votos que detinham, fez desse próprio Estado, acaso crimes tenham sido efetivamente cometidos, verdadeiro “cúmplice” do grupo, ou como passou a ser designada pela própria polícia estadual, da “organização criminosa”.
O fato é que algo prévio e adrede combinado, ainda que no inconsciente do poder, que muitas das vezes funciona assim mesmo, reunindo esforços de obsedados para “prestar serviços” ao poderoso de plantão, que omisso ou mudo no relato de fatos envolvendo “A” ou “B”, acaba por “dar a ordem”, “dar o OK”, para que isto ou aquilo que não seja lá muito republicano “ande”.
No benefício da dúvida a que todos têm direito, é difícil ignorar que focar o aparelho de investigação estatal em Wallace e seus irmãos e parentes por meses e meses, jogando à opinião pública com regularidade quase que suspeita tudo o que se sabia e o que se supunha saber sobre o “caso”, efetivamente desviaram o foco para os demais escândalos do dia-a-dia do Governo findado recentemente.
Afinal, o que mais fez a “minha polícia”, durante esse tempo. Por quais motivos não fez o que acreditou ter que fazer contra esse grupo ou organização ou família, antes da eleição de Carlos Souza para Vice-Prefeito, quando já tinha, segundo se sabe, os tais indícios de envolvimento de Wallace e seus irmãos com supostos ilícitos?
Em razões derradeiras, prezados leitores, ACERTARAM O ALVO, literalmente.
Mas a maior dúvida de todas, o que fica para reflexão final, é o silêncio absoluto de Wallace. Traído politicamente como se sabe ter ocorrido no episódio de sua cassação, pai de um filho preso, com os irmãos ameaçados de prisão, quedar-se em mudez até o encontro com a verdadeira vida, que começa na morte, é algo inexplicável.
Um mistério que acabou com o passamento de Wallace, juntamente com a oportunidade de “dar nome aos bois”, ou ao menos “salvar os que restaram”, acaso salvação haja.
De qualquer sorte, não há vitoria em jogo de azar. Só a sorte, que muda de lado como mudam os ventos.
A família Souza, especialmente ao Rafael e sua mãe, ex-esposa de Wallace, meu abraço fraterno nessa hora de dor pela perda de um ente querido.




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