
Por Vivi Cariolano
A minha entrevista desta semana parece um gasparzinho de tão branca, tem os olhos na cor de um azul infinito, canceriana, é alta, magra e um pouco exagerada: “preciso eliminar uns 4 kg”. Nascida no sul do país, corintiana roxa por causa do pai, não revela a idade, me contou que foi uma jovem piradinha e adora passar os domingos em casa assistindo futebol. No ápice de sua rebeldia, ficar longe do pai e da mãe era tudo o que ela mais queria e muito esperta me escondeu sobre sua primeira vez, ela é cheia de segredos sem se tornar chata. Adora fazer um mistério, te prende com sua oratória, é engraçada, já deu aula para sobreviver e não pretende se aposentar na política de jeito nenhum. Desde criança sempre teve um senso muito grande de responsabilidade. No auge de sua militância e mocidade, não curtia muito o barbado que hoje é seu marido, desconfio de que foi ela quem deu em cima, pois ao perguntar sobre o romance dos dois também me fez segredo. Prolixa, determinada, atuante na política baré há algum tempo, já foi chamada de “Traidora do Povo” e recentemente se viu envolvida na estória de um ovo. Ela me recebeu no seu QG aqui em Manaus e ainda me convidou para fazer parte do PC do B -AM. Morri, não viaja, senadora. Nosso bate papo foi regado de boas gargalhadas, tive o imenso prazer de saber um pouco mais sobre a mulher forte, destemida e sem medo algum, só é um tanto quanto apegada às coisas, mas está se desapegando aos poucos. Atua como Procuradora da Mulher é Presidente da Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas e está vice - presidente da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), com vocês, a comunista batizada e crismada, Vanessa Grazziotin.
“Falem o que quiser, as pessoas evoluem e eu viveria tudo de novo!”.
Fotos: Taiane Sales/César Nogueira
Me conte, essa beleza vem de onde, qual é a procedência?
Beleza? Beleza tem você!! rsrssrsr
Ai para, você tem sua beleza, sim!
Eu tenho um biotipo diferente aqui da região, minha família vem do Norte da Itália. A minha descendência é italiana tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Nasci no interior de Santa Catarina, cheguei aqui menina.
Quem te inspirou na política? Teus pais?
Não, de jeito nenhum, não não. Eu não tenho nenhuma inspiração política na minha família. Minha mãe gostava de nos reunir, no interior da cidade onde nasci, e ela contava histórias. Meu avô tinha de tudo na cidade, hotel, madeireira, lojas, e ele recebia muitos políticos. Minha mãe falava que eles comentavam da UDN (União Democrática Nacional), PSD, mas não iam além disso.
E como a sua família era nessa época?
Minha família era típica de Classe Média, sem envolvimento nenhum no mundo político. Eu nasci no período da Ditadura, até a minha adolescência o país viveu esse período e eu muito sem saber o que era aquilo.
Tu és filha única?
Não. E às vezes que perguntei sobre política, porque via na televisão ou nos jornais, meu pai não sabia responder. E o que marcou nessa época é que meu pai me respondeu, certa vez, por que havia duas Alemanhas.
O que ele falou?
“Olha minha filha, tem a Alemanha boa e a Alemanha ruim”. Me explicou o porque da divisão, mas não foi isso que ficou gravado em mim. E sim o fato dele ter dito que a boa Alemanha era a do lado Ocidental e a ruim era a que ficou lá para o lado dos comunistas. Heehheehe
Comunista, :pppp
Olha só, rs. E por que eu entrei na política..., quando comecei na Universidade do Amazonas, o campus era bem longe, toda a estrada era de barro, era um ambiente que eu não estava acostumada aqui em Manaus. Eu estudava no Ciec, não tinha vinculo e nem contato com a política. A coisa mais progressista que tinha na escola eram os grupos, o de Teatro e o de Esportes. E eu não me adequava a nenhum. Então quando cheguei na universidade, foi algo chocante e ao mesmo tempo instigante.
Chocante por quê?
Chocante porque estava tudo pichado, a anistia era geral ampla e restrita. Gente de tudo quanto era lugar, eu conhecia muito gente do cursinho. Não que eu fizesse o cursinho, eu dizia pro meu pai que fazia, mas no fundo não fazia...
Você mentia pra ele, hahaahha
Eu só ia lá na hora da saída. Não estudava nada porque eu não queria passar no vestibular.
Mas por que não????
Meu pai dizia que tinha de estudar muito porque se não passasse no vestibular ia ter de embora, estudar fora. Já pensou estudar fora? Ficar longe do pai e da mãe? Era tudo que eu queria!!!!
Que rebeldia!!! :ppppp
Eu só ia no final para encontrar minhas amigas e esperar o meu pai ou minha mãe que ia me pegar. Nunca frequentei nenhuma aula do cursinho.
Teu pai era militar e por isso se mudou pra cá?
Não, ele era gerente de banco. Rolou um convite para gerenciar aqui e ele aceitou. E veio todo mundo, meu pai e minha mãe, eu e meus irmãos.

São quantos?
Eu tenho uma irmã e um irmão. Eu sou a do meio.
A Rebecca (deputada) comenta que por ser a filha do meio se considera uma sobrevivente, tu te consideras uma sobrevivente também?
Não. Eu sempre tive a característica de ser a mais velha e a mais nova. E eu não sei por que, mas na hora de dar as responsabilidades era comigo e na hora de fazer o dengo era comigo também.
Qual teu signo?
Câncer. Muito bobo, neam...
Não, o canceriano ele é sensível, mas...
Então, por isso que eu digo que é um signo bobo, é muito sofredor...
Não, o canceriano vai pra cima, não deixa as coisas baratas, não.
É, o canceriano vai para cima mesmo, mas mesmo assim sofre.
Você é muito chorona?
Um pouco ; /
OWNNNN ; (
Não parece, neam.., mas eu sou !!!!
Não parece mesmo, não!!!
MAS EU SOU, rs.
E essa militância como começou? Você não fazia cursinho, não queria passar no vestibular, me explica...
Ah eu não queria passar no vestibular para ir morar fora. Eu queria ir embora, mas não porque eu não gostava da cidade, Manaus já era o melhor dos mundos pra mim, um jovem se adapta muito rápido, mas eu queria morar fora. Era um sonho, ... eu queria morar só.
Hahahahaha entendi.
A minha irmã acabou indo e eu fiquei fazendo faculdade. Na minha época havia os cursos profissionalizantes, era obrigatório no Brasil ter uma profissão técnica de segundo grau. E eu não quis mais continuar em Exatas e fui para a área da Saúde. Eu na verdade queria inventar uma faculdade pro meu pai que não existisse aqui...
Hahahahha tudo pra ir embora
Foi aí que comecei um dilema, logo que entrei na universidade, porque comecei a gostar muito daqui. Fui fazer Farmácia e me deparei – talvez, com um dos cursos mais difíceis, pois era muita química, era muito difícil.
E o dilema continuou?
Mal eu sabia que o dilema havia só começado, pois fui obtendo muitas informações, o curso era só técnica das informações da vida.
Sim
Cotidiano da vida, cotidiano do que se passava no país. Foi muita carga de informação. Até que resolvi - por conta desse dilema do curso, participar de um Encontro de Estudantes de Farmácia em Belém. Tive muita dificuldade para ir porque não fui bem aceita no centro acadêmico no começo, ...

Sofreu bullying?
Não... Foi por outra razão.
Qual razão?
Achavam que eu não era militante, ...
Que você era uma poser?
É, que eu não iria segurar a onda, que eu iria preencher a vaga de outro.
Naquela época você já dava demonstrações de que quando queria algo ia até o fim?
Sim, pra eu ir nessa viagem, eu consegui tudo até minha hospedagem. E eu consegui as passagens todas. E quem mandava na delegação era eu porque eu havia conseguido tudo. :ppp
Ahhahaahaha chupa
Se bem que era passagem de navio, pensa.. daqui a Belém, naquele Catamarã.
Não interessa, você conseguiu.
Pois é, eu consegui.
Primeira vitória no currículo.
E de lá me convidaram para participar do Conselho Nacional de Entidades de Base (Coneb), o presidente do nosso centro acadêmico que no inicio não queria que eu fosse para a viagem à Belém me convidou para representar nossos alunos em Campinas. Liguei pro meu pai e ele deixou, daí eu fui.

Foi nessa época que você começou a namorar o Eron?
Não, foi um pouco depois. Nessa época eu tinha outros namorados..
Ahhhhhhh então tua primeira vez não foi com o Eron?????
Rsrsrssrssrsrsrss
Você tá rindo muito, isso é uma confirmação?
EU NÃO CONTO!!!!
Pode me contar, deixa de graça. Cuida, hahahaha
Vai ficar uma interrogação, kjkjjjkjkkjkj.
Você acabou de contar praticamente. :pppp
Não, eu disse que tive outros namorados. Tua mente que é fértil demais, hahahahaha.
Então quando foi que ele apareceu?
Ah, eu o conheci logo que entrei na universidade.
Quem deu em cima de quem?
A gente conviveu durante muito tempo, o curioso é que eu não gostava dele.
Não gostava?
Gostava politicamente, mas enquanto homem eu não gostava muito. Ele era amigo de uma amiga, ele chegava pra conversar com ela e acabava que conversávamos também. Logo que comecei a militar, daí fui eu quem começou a ter mais contato com ele. E a minha amiga ficou um pouco de lado porque ela não era muito da militância.

Hmmmmm
Rsrsrsrrs, eu fui mudando minhas companhias...
E as impressões também, já vi tudo...!!!!
Eu fui mudando tudo, meus amigos eram muitos jovens, eu tinha 17 anos...
E ele???
Ele era bem mais velho, fazia curso de agronomia. Eu tive um probleminha em nosso curso e fui pedir o apoio dele e da minha amiga, eu tinha um grande respeito por ele. De todos ele era o mais experiente, daí foi um passo pra eu ingressar na tribuna operária, o partido era ilegal ainda, ...
Qual ano?
1979, 1980. Tribuna era um jornal que existia no país inteiro, dentro desse jornal a gente fazia política. Meus domingos era vender jornal no Alvorada, vendia no campus também, enfim foi um passo para começarmos a namorar. Começamos quando eu já era do partido.
Ele já era maior?
Sim, já era maior de idade.
E tu, já tens 40 anos?
Não aparenta, neam... Mas daqui um pouquinho passa ahhahahahha
Ahhahahahha você é muito engraçada
É outra coisa que vai ficar na interrogação, jkjkjjjkjkjk
Ai mas é uma ridícula, vai deixar tudo na interrogação mesmo??? U_U
Nãooooo, nãooooo. Eu não gosto de falar minha idade (usou do drama, kkkk).. é algo muito pesado, eu não gosto nem de pensar, imagine falar xD
Hahahahaha vou morrer. Tua voz falando isso foi a melhor :ppppp
Rsrsrsrrsrssr

Não me disse se a primeira vez foi com o Eron, não quer me dizer a idade. Estou só anotando ¬¬
Ah, minha primeira vez você não vai descobrir, rs, mas minha idade tem em tudo quanto é lugar. A idade é uma referência que a ciência ainda vai mostrar que não é igual para todos, é e existe uma diferente de pessoa para pessoa.
Você já é mãe?
Já, menina!!!
De quantos?
Eu só não sou avó, tenho uma filha, médica, de 29 anos.
Você me disse que é emotiva e com certeza já sofreu muito preconceito desde a época de militância. Eu queria saber como você lida com o fato de ser menina e se há pessoas dentro da política que te aconselham, o Eron te ajuda nesse sentido?
Ser mulher não é fácil, em lugar nenhum. Infelizmente, apesar disso não está escrito e o que está escrito é a proibição da discriminação de qualquer forma em relação a gêneros, mas na realidade a situação é outra. Vivemos um período de herança de uma época...
Que só existia menino no poder, não é?
Sim, um período em que a mulher foi totalmente discriminada. Mulher não tinha direito de votar, o desejo dela era manifestado pelo pai, depois pelo marido, ela tinha que cuidar da casa, dos filhos, e isso tudo tem uma explicação histórica.
Qual? ; (
Tem gente que diz que essa diferença vem dos primórdios da civilização e isso não é verdade. Lá nos primórdios a sociedade não era patriarcal, ela era matriarcal. A pessoa mais respeitada no clã era a mulher porque como era tudo muito livre, era tudo muito selvagem, a mulher tinha mais valor porque ela sabia ser mãe, cuidava das crianças, dos jovens, o pai não. Ninguém sabia exatamente qual era a posição do pai, não sabiam nem quem era o pai. Então, a mulher era a mais respeitada, ela era a figura em torno de tudo que girava. Mas isso até o homem dominar a natureza e passar a acumular bens. A partir dessa acumulação as coisas começaram a mudar. E a coisa muda de figura, o homem começou a escravizar para trabalharem para ele, começou a obter o acúmulo de riquezas, e a mulher pra ele passou a ser somente para ter a certeza de que aquele filho era realmente dele, pessoa na verdade que ele iria deixar toda a sua herança.
Entendi u-u
E desse tempo para cá, a mulher passou a ser subjulgada com o papel de cuidar da casa, vivendo somente para ser mãe, o marido começou a proibir de estudar, de trabalhar, a mulher não podia fazer nada. Tudo muito recente. E se formos analisar, existe um pouco mais de um século que começamos a ocupar os espaços, a lutar. A gente sofre até hoje, dizem que é tudo igual, direitos iguais. Mas não é, se fosse, de 81 cadeiras – senadores, teríamos a metade mulher, mas não, somos somente 08, não está certo.
E como foi esse teu processo?
Comecei aqui com o Movimento Estudantil. Fui a primeira mulher a presidir o Diretório Central dos Estudantes, era um momento de muita dificuldade, final de Ditadura, era uma redemocracia no país, momento de efervescência, diferente de tudo que existe hoje.
Diferente como?
Hoje os meninos se reúnem para a balada, naquela época se reuniam para fazer política. Hoje o bacana é casar de véu e grinalda, fazer festas lindas e maravilhosas.
E na tua época?
Isso era cafona, era algo conservador e tudo que cheirasse a conservadorismo era abominado.
Repelido?
Era repelido e abominado porque era uma época de rebeldia. Sabe o anel de formatura, quê isso? Não tinha, não.
Hahahahaa eu sou conservadora, pfffff
Pra nós era uma vergonha, a menina que chegasse com o anel de formatura era repelida na hora, pra quê gastar dinheiro com isso, não rolava...
Usar aliança então, nem pensar???
Eu uso a minha e uso a do Eron, também.
Como assim? Deixa eu ver?????
Hmhmhm, eu acho que tirei justo hoje a do Eron..., eu usava a minha e a dele.
E por que ele não usa??? Por que todo o Amazonas sabe que vocês são casados, é isso?
É uma besteira isso, é só um simbolismo. Haahaha
Qual foi a maior das tuas rebeldias?
Vivi o dilema de querer entrar e fazer política, mas ao mesmo tempo com o cuidado em não magoar meu pai e nem minha mãe (.....passa a me contar um pouco da responsabilidade que adquiriu enquanto era pirralhinha. De sua infância até os 13 anos, a família era dedicada em cuidar de sua mãe e tudo girava em torno do tratamento dela, confessou que era muito rebelde, mas por ser a filha do meio algo lhe dizia que deveria fazer o que lhe era incumbido). Depois que me casei tive logo minha filha, foi um momento difícil porque logo que casamos o Eron foi preso, era pra eu ter sido presa também.
Por que diz isso?
Porque o ato foi eu quem organizou enquanto presidente do DCE.
Ele foi preso em teu lugar????
Não, foi todo mundo preso, na época até o governador Omar correu da policia.
Hahahaahhaa ele já me contou que fugiu muito da polícia
O Omar era do partido na época, enquanto eles passavam por isso eu estava no hospital ganhando bebê. Eu só passei por tudo isso porque eu internalizava a situação.
Vivia!!!!!
Claro, e assim eu superava. Depois do Movimento Estudantil eu segui para o Movimento Sindical, mas mais por uma necessidade. E nisso o Eron foi demitido logo que a gente casou, não tínhamos do que viver, e a Rafaela estava para nascer, eu fui dar aula.
Aula de quê?
Estava quase me formando em farmácia, e fui dar aula porque foi o que apareceu. Montamos uma farmácia com a indenização que ele recebeu e mais a sociedade que meu pai entrou- uma grande parte, vivíamos disso. No começo, meu pai como era contador, ele entendia que tinha de ganhar dinheiro e não colocar o dinheiro por causa de estoque e tal, até que deu muito certo. No começo a gente teve de colocar dinheiro na farmácia, passamos um bom tempo assim...
Foi ralado, ein, vocês chegaram a passar fome?
Não, nunca passei fome, mas foi uma época bem difícil. Tinha de pagar as contas da taberna, renegociar dívidas, fui dar aula e o Eron junto comigo na farmácia.
E o processo eleitoral quando foi o pontapé inicial?
Em 1985, o partido já estava legalizado, e no ano seguinte fui candidata a deputada estadual e o Eron também. Marido e mulher candidatos ao mesmo cargo.

Hahahaahhaha
srsrrsrsrsrs
Quem ganhou?
Quem teve mais votos, porque ninguém ganhou.
E quem teve, tu?
Eu tive mais votos. Não tínhamos coligação, nosso intuito era divulgar o partido, que os comunistas não comiam criancinhas, comunista era igual a qualquer outro e que o nosso partido queria o bem do povo. A sociedade via com outros olhos, achavam que os barbudos eram todos terroristas...
E o Eron ainda era um barbudão!!!!!!!!
Pois é, haahhahahaha. Em 1988 me elegi junto com João Pedro e o Artur foi o prefeito da época. Eu era vereadora nunca pensava em ser deputada, enfim, sempre trabalhei para somatizar, não tinha muito tempo para gastar com os problemas. Não coloquei na cabeça que: “Ah eu vou querer me candidatar a isso e aquilo!”.
Você não traçou uma carreira política foi deixando a coisa te levar?
Na vida pública tem gente que fala que vai começar como vereador porque o intuito é ser o presidente da república. Me perguntavam muito isso, mas não gente, se dar bem na vida tem os espertões e tem aqueles que vencem pelo trabalho.
Como que é a Comunista Vanessa? Pensamento retrógrado ou ele está mais para algo contemporâneo?
Não tem o retrógrado e nem o contemporâneo, a gente vive uma realidade predominada pelo capitalismo. Eu questionei muito isso, não sabia de nada até entrar na universidade. Acabei adquirindo uma opinião muito sólida. Você não consegue melhorar de vida se não conseguir melhorar a vida dos outros, segundo: não é correto você lutar só por você. A gente precisa lutar para que todos vivam bem, um depende do outro. As pessoas hoje se questionam pouco, no passado nos questionávamos mais. Mas La na frente esse questionamento vai voltar.
E volta cada vez mais forte.
Sim, mais forte e mais sólido. Por que tudo gira em torno do capital e não da gente? Por que alguns precisam trabalhar tanto e vivem tão mal enquanto outros vivem na babesca?. Esses questionamentos precisam ter respostas.
Alguns falam que você traiu o movimento, que antes você não ligava para aparência e hoje está toda não me toque, toda Patrícia. Isso te incomoda?
A primeira coisa que a gente aprende é que uma das motrizes da sociedade é a dialética, as coisas mudam, eu até gosto de uma música, ela é bem simples. (..... Vanessa canta pra mim, corri no youtube e procurei o vídeo, vou colocar no final da entrevista).
A mudança foi tua ou foi algo que te impuseram?
Não, não. Veja bem, os meus princípios não mudaram em absolutamente nada. Agora a forma do encaminhamento e da luta é que mudaram. Eu tenho uma idade hoje que não é mais os meus 17, 18 anos, então eu também mudei. Aí as pessoas falam que eu era despojada, que eu era de oposição, ...

Hoje falam que você é perua *----*
Mas falam de tudo, até que hoje não tenho mais cabelo encaracolado, mas peraaaaaaaí, era de oposição a um governo e sou até hoje. Ele que não é mais governo, nós chegamos ao poder porque vencemos as eleições e não porque aderimos. Já em 1989 apoiava o Lula para presidente, só viemos vencer as eleições com ele em 2002. Entramos no governo e continuamos até hoje. Depois veio o segundo mandato do Lula, em seguida a Primeira Mulher. E vamos lutar e caminhar para a reeleição dela. Estou no mesmo lugar, o que muda é a forma de fazer a política.
Isso que precisam estar atentos na verdade?
Sim, e a sociedade evoluiu também. A forma em que vivemos hoje é diferente da que vivemos há 11 anos, naquela época a prioridade do governo era privatizar tudo. Há 11 anos a prioridade do governo era fazer parte do bloco americano. Tudo tem seu tempo, temos de entender a linguagem do povo e jamais podemos colocar os burros na frente da carroça. Na política nem sempre se anda para frente, às vezes precisamos andar para o lado ou dar a marcha ré.
Quem é o teu maior adversário político hoje?
De pessoa? hmmm, eu não tenho. Meus adversários são os projetos e pessoas que representam projetos. Eu, na política, sempre procurei me pautar de uma forma mais coletiva, nunca miro a pessoa, miro o projeto, eles precisam estar de acordo com o politicamente correto, de forma justa.
Sabes que vou te perguntar sobre o incidente com aquele ovo, o que de fato aconteceu?
Quero saber de você, aquilo existiu mesmo?
Existiu sim, há um laudo ( ...a assessoria da senadora me disponibilizou uma cópia do laudo, ele possui 24 páginas. Laudo n. 686/2012 – SETEC/SR/DPF/AM – Perícia Criminal Federal, datado do dia 22 de outubro de 2012). Eu passei a campanha inteira sendo acusada de ter montado uma farsa.
E o que o laudo diz?
Que não houve farsa montada nenhuma. Eu estava chegando para o debate, aquela festa toda, e quando de repente caiu um negócio gosmento no meu olho.
Te machucou?
Não. Não era de machucar, era algo de sujar, uma imundície, era algo nojento. A príncipio, geladinho, achei que era água, mas começou a entrar no meu olho, daí eu peguei e quando toquei era tipo uma baba, até falei: “Meo deos, será que é um ovo?”. E eu falei isso na hora em que estava saindo do carro. Cheio de jornalistas na minha frente.

Putz,!!!!
E não tinha nenhum espelho na minha frente. Eu comentei: “Será que é um ovo? Acho que fui atingida por um ovo!”. E começaram as fotos – que não são nossas, fotos da própria imprensa,
E das pessoas que estavam no local!
Sim, foram fotos que bateram na hora, foi isso que a Polícia Federal analisou, ela viu que não houve farsa, não houve montagem.
E o que era?
Olha, era uma gosma que até hoje não se sabe o que é. Eu achei que estava pegando numa clara de ovo, gema não era porque a gema é amarela, pra você ter uma ideia, foi tudo assim ..
Muito rápido?
Na mesma hora começaram a cair os confetes e um desses confetes – por acaso, era brilhoso e amarelo, tentaram dizer que a gente colocou aquilo, foi uma coisa horrível. São procedimentos que não cabem na política.
Foste vítima de uma artimanha?
Eu jamais faria isso com alguém. E quando entrei para o debate pensei: “Falo ou não falo?”. E eu já sabia que o alvo do debate era eu. Alvo de todos. Se eu falar isso aqui sem saber dizer de onde veio...
A procedência da gosma nojenta.
Ah eu vou ser triturada por todos aqui. Acabou que eu não falei. E no meio do debate mostraram uma pessoa que tinha sido apontada como a que jogou isso e eu não fazia ideia de que lá fora estava armada toda essa confusão. E depois vendo pelas imagens, havia todo um clima montado para me agredir.
Algo premeditado pra ti?
Havia bruxa minha, estavam segurando bruxas minhas. Muita coisa que a sociedade não sabe. Eu não tinha meio para falar, ninguém me ouvia. Ah mas tem o maior tempo da televisão, besteira. A imprensa não divulgava. Havia um outro candidato que tinha preparado todo o seu pessoal, eles seguravam a bruxa, meu voodoo, era um monte de besteiras. Certamente uma dessas pessoas me atingiu. Tive que passar por isso a campanha inteira, mas enfim, isso já passou.

Que ensinamento isso te trouxe?
É ruim porque é algo que magoa a gente, do ponto de vista pessoal.
Você chorou?
Chorar eu não chorei, até choro por muitas coisas, mas esse tipo de coisa eu procuro agir calmamente,,...
Você não ficou puta da vida?
Ah fiquei, mas procuro agir com racionalidade. A gente avalia hoje porque a nossa versão não foi ouvida, apesar de ser a versão verdadeira e não vingou, não há uma resposta só...
Por que tu achas que a versão de vocês não vingou já que era a verdadeira?
Há um conjunto de explicações e eu falo isso da mesma forma que não virei prefeita de Manaus. O que temos de entender é que dois anos antes, eu havia sido vitoriosa ganhando uma eleição disputadíssima, em Manaus a diferença foi 20mil, foi praticamente um empate. No interior, também, praticamente um empate. MAS EU VENCI, VENCI CORRETAMENTE!!!
Venceu!
Venci pelos méritos, foi uma disputa equilibrada. Meu candidato era muito forte, em todos os aspectos políticos, também. Tem gente que diz que ele estava isolado, não estava não. Foi uma disputa muito igual, e eu venci. Venci. Isso foi muito importante, talvez as pessoas devam ter feito uma leitura de que eu havia acabado de vencer uma disputa e vencer outra agora!?!?... Penso assim. E na política, também, as pessoas buscam equilíbrio. Não pode estar todo mundo do mesmo partido ocupando tudo, isso não é bom. Acho que tem essas questões.
Acha que foi nessa campanha que você obteve mais projeção junto ao povo? Tu passarias por isso novamente?
Eu já havia sido candidata a prefeita, em 2004, e o problema que enfrentei foi outro.
Qual?????
Fui a traidora do povo porque votei contra o aumento do salário mínimo. Era o primeiro mandato do presidente Lula, foi um momento muito difícil porque não era de conhecimento público, mas nós lá dentro sabíamos que havia toda uma trama para tentar inviabilizá-lo enquanto presidente da república. Era uma tentativa de tirar o mandato dele, a ele foi exigido muitas provas e ao mesmo tempo ele tinha de promover mudanças e dar sinal para o mercado. Uma das questões era o salário mínimo, hoje vivemos algo parecido. Dizem que a inflação está muito alta, o Brasil tem de voltar a subir juros, a economia vai entrar num descontrole completo, enfim, na época era o contrário. Como já falei, na política a gente precisa recuar um pouco, andar para os lados ou para trás. Eu tinha muita consciência daquilo, não tinha maioria no congresso o presidente. A medida de aumentar o salário mínimo era eleitoreira porque a oposição ao Lula assim queria e fez exatamente o contrário do que estava propondo quando estava na situação.
Essas questões são puramente eleitoreiras e acaba que fica internamente.
E trataram de dizer que eu era traidora do povo, fizeram uma campanha enorme dizendo: “Ah, a Vanessa mudou, agora ela contra o povo!!’, “ela é contra os trabalhadores, é contra o povo!”.
Foi pega para Cristo porque de fato sabia o que estava realmente acontecendo?
Eu até acho que deveria era sair candidata à prefeita uma terceira vez,... :pppppp
Kkkkkkkkkkk
Porque o que aconteceu é que não foram problemas iguais e que acabaram como justificativa para eu não vencer as eleições. Um me tirou do segundo turno e o outro me tirou da vitória.
Você viveria tudo de novo?
É importante no ponto de vista da formação porque nada paga, nada, nada. Viveria, sim. Quem está na vida pública acaba que precisa se expor a isso. Lula foi presidente do país em sua 4ª disputa quando muitas pessoas falavam que ele nem deveria sair candidato. Posso ter um monte de defeitos, mas incoerente nunca fui. A pessoa jamais deve perder a sua incoerência. E quando isso acontecer eu seria a primeira a dizer TCHAU.
E as tuas pretensões dentro da política?
Continuam as mesmas. Continuo a mesma Vanessa, deixa as coisas acontecerem, rsrsssrr.
Já tentou em algum momento desistir de tudo? Ou esse pensamento não existe pra ti?
É claro que existe, mas logo ele passa, hahahaaha.
Dá vontade de chutar o pau da barraca e sair matando todo mundo?
Pior que não dá pra fazer isso, mas eu chuto mesmo.
És a primeira a dizer que vai chutando tudo mesmo. Minto, Omar também me falou, hahaha.
Chuto, chuto. E procuro chutar com aqueles mais próximos, mas isso é ruim. Mas logo depois, eu vou me desculpando com eles.
És de pedir desculpa?
CLARO. Nossa, e a pessoa que mais peço desculpa é para mim mesma. Às vezes eu me auto -torturo.
E sobre espiritualidade e religiosidade como tu és?
As pessoas dizem: “Ah, ela não tem religião!”. Mas eu tenho sim, como te disse, vim de uma família tradicional, sou batizada, crismada, frequentei a igreja enquanto criança.
Acabei de ser crismada \o/
Ah, mas eu depois de jovem acabei não frequentando mais a igreja, mas isso não significa dizer que a abandonei. Eu creio muito, me considero uma pessoa crente, essa minha crença está dentro de mim. Creio que há algo que ainda não chegamos lá, isso até é muito debatido por mim, pelo meu marido, pela minha filha, no partido. Ou eu creio com muita força ou eu sou descrente, temos esses dois caminhos a seguir. Optei pelo credo, eu creio que há.
Que bonito, rs.
Eu creio nessa força, não sei onde está, mas que Ela existe, existe.
Tu curtes futebol?
Sou corintiana, herança do meu pai. Se eu pudesse passaria os domingos em casa, assistindo futebol. (....conta um caso engraçado envolvendo sua fixação pelo Corinthians e como adquiriu o gosto pelo futebol com seu pai que tinha sempre mais de um time para não sofrer tanto. Ela o perdeu a pouco tempo e ainda fala nele no presente).
Eu gostaria que você desse um recado para as meninas que pretendem engajar na política e te tem como inspiração. : )
Você também, você leva muito jeito, não sei por quê. Que tal, venha para o PC do B, Vivi.
Ahhahahha,
Rsrsrsrsrs é sério, vem!!!
Naummm, pfvr, não viaja. Já sou política do meu jeito, não cogito ser partidária :pppp
Eu digo isso porque já tenho muitas atribuições, (........ neste momento passa a me falar um pouco de sua agenda, dos seus ofícios, de seus cargos e nomenclaturas e a importância deste caminho ser seguido. Fez um balanço do lugar em que ocupamos em nível mundo e do lugar que poderíamos ocupar. Já na participação da mulher, somos o país que no momento somente engatia). Nós queremos institucionalizar a luta das mulheres, promover a luta do coletivo em prol das mulheres. Nós temos já no Estado a Secretaria da Mulher, estamos trabalhando este ano a luta pelo empoderamento. Muitas mulheres mudam quando entram na política, e muitas delas mudam a política e é isso que nós precisamos fazer. Por isso estou falando de você.
Pára, Vanessa, pfvr. *----------*
Nós precisamos reforçar as políticas de cotas, nós já temos, mas ainda é faz de conta. Precisamos fazer com que ela deixe de ser faz de conta para ser verdade. E para ser verdade a mulher tem de estar lá. Se a mulher tem todas essas barreiras culturais diante dela, ela só precisa de um empurrão para mostrar a que veio. Acaba que somos penalizadas por fazermos o nosso papel com a humanidade, só porque ela sai para ter bebê nunca vai poder chegar ao cargo de direção? Vamos mudar essa realidade. 09 meses a gente carrega, a gente não fez só. A mulher não pode ser penalizada por isso, no dia que a gente chegar a ocupar esses espaços e a sociedade compreender que a mulher tem de estar lá, que não seja só os 8, 9%, que seja 40%, 50% 60%. A média do Brasil hoje é 9%. Um absurdo.
Agora deixe um recado aos leitores que terão acesso a tua entrevista.
Quero dizer que sou muito grata, não nasci aqui. Mas sou a filha que mais recebeu carinho, confiança, amor do seu povo e de sua gente (se referindo à Manaus). Eu sempre tive esse estereótipo diferente, mas isso nunca pegou em mim, um ou outro dizia: “ela não é daqui!!”.
Ah, mas você mora aqui desde muito cedo, oras.
Mas não é o caso de você morar, é você viver e você lutar. Eu acho que o povo tem muito disso. Tive a alegria de ter sido a deputada mais votada do Estado, em 2002, tive muito mais do que um quociente eleitoral, aqui e no interior.
É isso que mantém em pé? De cabeça erguida?
É isso que me dá fortaleza, e coragem. A pessoa precisa ter muita coragem. A pessoa é medida não pelos nãos que ela diz e sim pelos sins. Você enfrentar e ir para cima, na política, isso é fundamental.
Eu fico pensando como é que é com Eron quando ele pisa na bola ...
Engraçado, mas com o Eron nossa história é de muito companheirismo, ...
Ele não pisa na bola?
Não, não.
E tu pisas????
Ahahhaha, não, não. Mas é claro que como todo e qualquer casal a gente briga, discorda muito, mas aprendemos a viver e a superar isso. A gente discorda em grande parte das coisas, mas nem por isso a gente deixa de ter essa relação de amor.
Quanto tempo juntos?
30 anos. E há 15 anos, metade do tempo, estou muito fora, isso ajuda também, sabia?
Quem é o ciumento da história?
Não tem.
DUVIIIIIIIIIIIIDOOOOO!!!
Hahahahha
Qual é o signo dele?
Ele é..., hmhmhmh, aquário.
Aquariano é ciumento *O*
Ah é?
Tu também és, nem vem!!!!
Hahaaahaha mas eu acho que sou muito apegada às coisas, até as materiais mesmo, preciso acabar com isso. Preciso me desapegar.
Hmhmhm
Sou uma pessoa de emoções muito fortes, sou apegada até com os objetos.
Tu andas com algum amuleto?
Ando com um monte, pra mim tudo vira amuleto, até a bolsa, kkkkk
Kkkkkkk
Tudo vira, é serio, :pppppp
Vanessa, deixa um recado pra mim e fique sabendo que adorei te entrevistar.
Eu gostei muito de você, gostei muito mesmo.
Obrigada <3
Acho que é isso, não falei minha idade no começo, mas o meu sentimento é de alguém que começou ontem, e quando paro para falar é ai que vejo que já vivi muita coisa.
E progrediu também., ctz

Muito, muito. E o que mais me completa é saber que não estou lutando à toa. E que estou do lado do bem, procuro estar sempre do lado do bem, sempre, sempre. Podem ter certeza que quando eu entrei na vida política eu estava abrindo mão de muita coisa individual para mim. Amigos, colegas de faculdade, companheiros, todos eles progrediram também...
Tu eras careta lá?
Mais ou menos.
Kkkkkkkkkkkkkkk
Passei por todas as fases
Então pronto, foste uma pirralha piradinha?
Mais ou menos, ahahhahahah
Entendi.
Olho para os meus amigos e penso, eu não quero ficar gagá – gagá na política, não. Tem uma hora para todos...
Vai fazer o quê depois?
Tem uma hora em que a gente tem de parar, meo deos, tem gente com 90 anos que não consegue mais nem falar e ainda faz política. Isso não dá.
Hahaahha
A roda gira, gira, o novo sempre substitui o velho. Eu quero descansar, quero ficar lá de fora, olhando, aprendendo, conversando...
DUVIDO! !

Ôpa, mas é verdade. Não tem uma idade em que as pessoas se aposentam?
Tem y-y
Acho que com 75. Então, já estou chegando perto do meu limite.
Para, ainda falta muito tempo pra ti.
Mas longe já esteve, kkkkkkk
Adorei, você é muito engraçada. Beijos .
Abaixo vídeo da música que a Vanessa gosta e cantou para mim em resposta às pessoas que acham que ela mudou tão radicalmente:
UMA FRASE, UMA MÚSICA: ( CLIQUE E OUÇA) 'NADA DO QUE FOI SERÁ"...
Vlw, Daniela Lopes (Tipiti). Beijos para todo o staff da Vanessa que nos acompanhou. <3
www.facebook.com/vivicariolano | Infos (92) 9446-2672 @ [email protected]






