Uma greve de garis deixou Manaus tomada pelo lixo no final dos anos 70. Heitor Dourado, então presidindo o instituto de Medicina Tropical, resolveu manifestar a sua preocupação com o problema, ao chamar a atenção para os riscos de endemias. Dourado fazia jus a esse nome: era simples, brilhante, sincero. Numa entrevista concedida ao jornal a Noticia e gravada por Raimundo Holanda, disse que a cidade poderia sofrer uma epidemia pela bactéria Leptospira, provocada pelos ratos. A matéria saiu com o seguinte título. "Dourado adverte para risco de leptospirose ". Na manhã seguinte eu estava na redação e, para minha surpresa Dourado entra, na companhia de Euler Ribeiro, então secretário de Saúde. Ribeiro pergunta pelo dono do jornal e se dirige para a sala da diretoria. Minutos depois a secretária me chama e diz: "Holanda, entra lá. Estão te chamando. Há uma bronca feia. O Dourado veio desmentir a noticia sobre leptospirose."
Pego o gravador, entro na sala da diretoria. Euler me olha com aquela cara de desgosto que sempre carregou desde pequenininho e diz para o dono do jornal.
- Esse rapaz mentiu e o Dourado veio aqui para dizer isso. Fala Dourado! O médico me olhou, constrangido, mas encarou Ribeiro:
- Olha secretário, eu falei exatamente o que foi publicado.
Euler, surpreso, olhou para o médico, levantou-se, virou as costas e foi embora, deixando uma ameaça velada: iria demiti-lo. Não o fez, por razões óbvias. Dourado era insubstituível numa área nova da medicina e onde o estado estava desenvolvendo pesquisas importantes.
Depois, não sei por que cargas d'agua, e sem mudar o mau humor, Euler foi eleito deputado federal. Mas Dourado permaneceu médico, com a dignidade que sempre marcou a sua vida.
Recebi hoje com tristeza a notícia da sua morte, vítima de ataque cardíaco. A gente aqui do Blog do Holanda poderia abrir o espaço com essa notícia. Preferimos contar essa história de um homem de palavras simples, mas de palavra. Um grande médico que ajudou a revolucionar a medicina tropical no Brasil.
Pego o gravador, entro na sala da diretoria. Euler me olha com aquela cara de desgosto que sempre carregou desde pequenininho e diz para o dono do jornal.
- Esse rapaz mentiu e o Dourado veio aqui para dizer isso. Fala Dourado! O médico me olhou, constrangido, mas encarou Ribeiro:
- Olha secretário, eu falei exatamente o que foi publicado.
Euler, surpreso, olhou para o médico, levantou-se, virou as costas e foi embora, deixando uma ameaça velada: iria demiti-lo. Não o fez, por razões óbvias. Dourado era insubstituível numa área nova da medicina e onde o estado estava desenvolvendo pesquisas importantes.
Depois, não sei por que cargas d'agua, e sem mudar o mau humor, Euler foi eleito deputado federal. Mas Dourado permaneceu médico, com a dignidade que sempre marcou a sua vida.
Recebi hoje com tristeza a notícia da sua morte, vítima de ataque cardíaco. A gente aqui do Blog do Holanda poderia abrir o espaço com essa notícia. Preferimos contar essa história de um homem de palavras simples, mas de palavra. Um grande médico que ajudou a revolucionar a medicina tropical no Brasil.

