Por Ana Celia Ossame, Especial para Portal do Holanda
Com 63 casos de suspeitas de tráfico de pessoas registrados desde 2010 até o ano passado na área da tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a Rede de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, que atua nessa região, encerrou ontem (4), um seminário que discutiu a invisibilidade do tráfico humano nessa região, reunindo representantes dos três países para discutir estratégias para prevenção e ampliar as informações sobre o tema.
O seminário da rede, vinculada à Regional Norte1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é realizado anualmente sempre em Tabatinga, no Amazonas, dessa vez aconteceu na cidade de Puerto Alegria, no Peru e contou com a tradução em três línguas, português, espanhol e ticuna, o que favoreceu os relatos dos indígenas.
A irmã Rose Bertoldo, secretária executiva do Regional Norte1 da CNBB e integrante da Rede “Um Grito pela Vida”, destacou a importância de reunir os indígenas para informar sobre o que é o tráfico humano, já que em muitas comunidades eles não conseguem ter clareza do que é esse crime e de como pode ser caracterizado.
No seminário, houve a participação de mais de 50 pessoas, com representantes de Tabatinga, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, comunidades de Letícia, Santa Rosa e outras localidades. Segundo Rose, Puerto Alegria fica à meia hora de Tabatinga em lancha rápida e nesse percurso é possível ver vários pequenos hotéis de selva, indicando a força do turismo na parte do Peru e Colômbia.
Os participantes trabalharam os conceitos de abuso e exploração sexual, presentes na região e relacionados com o tráfico de pessoas. Discutiram ainda as diferentes finalidades do tráfico: exploração sexual, trabalho escravo, extração e venda de órgãos, adoção ilegal, casamento servil, servidão doméstica, mendicância, recrutamento para atividades ilícitas, tornando visíveis algumas situações encontradas nas comunidades da Tríplice Fronteira.
“Temos feito um trabalho permanente de prevenção e nesses momentos surgem os casos, porque os povos indígenas não sabem definir o que é o esse tipo de tráfico”, explica a irmã Rose, citando que na tríplice fronteira há uma grande circulação de tráfico de drogas, crime que recebe a prioridade de combate da polícia, sem maior atenção para o tráfico de pessoas que também acontece na região.
Ao citar a denúncia de tráfico humano ocorrida em junho deste ano em São Gabriel da Cachoeira, que apontou um processo emigratório ilegal de crianças e adolescentes indígenas para a Turquia, Rose afirma a importância do esclarecimento do que é esse crime aos povos indígenas para reduzir ou evitar casos que vão resultar tanto na exploração de trabalho como sexual.
A invisibilidade do tráfico humano, segundo a secretária executiva da CNBB Norte 1, favorece os grupos de traficantes que atuam no turismo de selva, em pequenos hotéis instalados nas proximidades das comunidades indígenas.
Existem muitos relatos de crianças que desapareceram e meninas que foram envolvidas na exploração sexual que têm indícios de tráfico humano e até adoções de crianças feitas por meios legais e ilegais, mas não se pode afirmar até acontecer a finalização de um processo judicial, explica a irmã.
Ao destacar que o trabalho da rede é focado na linha da prevenção, fortalecendo as comunidades rurais e indígenas para evitar esses crimes, Rose afirmou que entre os pontos mais positivos do seminário foi mostrar que o crescimento do turismo de selva, que é uma fonte de renda importante, tem que ser legal e respeitar as comunidades indígenas. “Não pode explorar meninos e meninas de nenhuma forma”, assegurou.
Para irmã Rose, os depoimentos ouvidos no seminário trouxeram a necessidade de se manter um trabalho permanente de prevenção junto à juventude e que deve acontecer especialmente nas escolas. Por isso, no final do evento, as comunidades aprovaram ações voltadas para a prevenção a esse crime.


