Manaus/AM - Os votos de 80,63% dos eleitores de São Gabriel da Cachoeira, município mais indígena do Brasil, 73,94% dos votos de Santa Isabel do Rio Negro e 65,02% de Barcelos, cujas populações são também de maioria indígena, ajudaram a eleger Luiz Inácio Lula da Silva (PT) presidente da República.
Os três municípios estão situados no Alto e Médio Rio Negro, em uma das regiões mais preservadas da Amazônia – com aproximadamente 750 comunidades indígenas de povos de 23 etnias.
O resultado, de acordo com avaliação de lideranças, é reflexo do descontentamento com a atual gestão de Jair Bolsonaro, marcada pelo aumento da pressão do garimpo, do turismo ilegal e das denúncias de tráfico, além das ameaças aos direitos constitucionais dos povos indígenas.
Em São Gabriel, onde há 33 pontos de votação, sendo 5 na zona urbana e 28 na zona rural, muitos indígenas têm que se fazer grandes deslocamentos para chegar aos locais de votação em meio à floresta.
Os Yanomami que vivem na comunidade Maiá, no território Yanomami no Amazonas, votam em São Gabriel da Cachoeira e têm que viajar seis dias em voadeiras – pequenas embarcações a motor –, conforme relatou Pauderney Rodrigues, filho da liderança Luciano Nascimento Figueiredo, ao portal do Instituto Socioambiental (ISA)
No segundo turno, cerca de 200 indígenas dessa comunidade saíram de suas casas para votar. Nessa época, o rio está mais seco, o que torna a viagem ainda mais demorada.
De acordo com dados do Tribunal Regional Eleitoral no Amazonas (TRE), 32.106 eleitores, 17.725 (55,2%) votam na área urbana, com 14.381 (44,7%) estando em comunidades. As maiores são Iauaretê, que tem 2.764 eleitores e Pari-Cachoeira, com 1.028.
Pela geografia do local, para levar as urnas até esses pontos é necessária uma logística que envolve veículos, barcos e aeronaves.
O diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, comemorou o resultado, projetando uma reconstrução da política de direitos indígenas e o protagonismo dos povos indígenas no novo governo, com a ocupação de cargos de liderança no prometido Ministério dos Povos Indígenas ou Ministério dos Povos Originários e na Fundação Nacional do Índio (Funai).
De acordo com ele, após Lula assumir, será possível buscar reconstruir toda uma política de direitos para os povos indígenas do Brasil que foi desconstruída ao longo desse governo Bolsonaro.
Para ele, o ministério a ser criado será para trabalhar com os povos indígenas e os cargos devem ser ocupadas pelos povos indígenas nessa construção participativa, seja no controle social, seja na implementação das ações, seja no protagonismo da política de gestão ambiental e territorial das terras indígenas.



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