Apesar da gravidade das sequelas provocadas pela poliomielite, a baixa cobertura vacinal de crianças, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, que estão em 44% e 42%, respectivamente, traz um aleta para o risco da reintrodução da doença no Brasil, da qual o país está livre desde o ano de 1994.
O alerta foi feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que pede retomada do projeto Reconquista das Altas Coberturas Vacinais, assinado entre o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e a Secretaria de Vigilância e Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS).
No Amazonas, a cobertura vacinal é de 63,5%, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que seja de 95% para evitar a volta da doença erradicada há 27 anos. A FVS já vem alertando os pais para a importância da da vacinação contra essa doença.
Desde o ano de 2016, o Brasil não cumpre a meta de vacinar 95% do público-alvo, patamar necessário para que a população seja considerada protegida contra a doença, avaliou o pesquisador Fernando Verani, epidemiologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz).
A poliomielite, também conhecida como pólio e paralisia infantil, é uma doença infectocontagiosa aguda causada pelo poliovírus selvagem responsável por diversas epidemias no Brasil e no mundo.
Entre as sequelas, pode provocar desde sintomas como os de um resfriado comum a problemas graves no sistema nervoso, como paralisia irreversível, principalmente em crianças com menos de cinco anos de idade.
Duas vacinas diferentes são oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para a imunização da pólio: a inativada e a atenuada. A vacina inativada deve ser aplicada nos bebês aos 2, 4 e 6 meses de idade. Já o reforço da proteção contra a doença é feito com a vacina atenuada, aquela administrada em gotas por via oral entre os 15 e 18 meses e depois, mais uma vez, entre os 4 e 5 anos de idade.
De acordo com Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), a cobertura vacinal com as três doses iniciais da vacina está muito baixa, chegando a 67% em 2021.
A cobertura das doses de reforço (a de gotinha) é ainda menor, e apenas 52% das crianças foram imunizadas.
A situação é ainda pior nas regiões Nordeste e Norte, onde menos de 45% das crianças receberam a imunização completa com as cinco doses.
A cobertura vacinal baixa aumenta em muito as chances do retorno do vírus ao país. Em fevereiro deste ano, as autoridades do Malawi, na África, declararam um surto de poliovírus selvagem tipo 1, após a doença infecto-contagiosa ser detectada em uma criança de 3 anos. A menina sofreu paralisia flácida aguda, uma das sequelas mais graves da enfermidade, a qual, muitas vezes, não pode ser revertida.
O último caso de poliomielite no país africano havia sido notificado em 1992, e a África toda declarada livre da doença em 2020. A cepa do vírus responsável por esse caso está geneticamente relacionada à cepa circulante no Paquistão, um dos dois países do mundo, junto com o Afeganistão, onde a pólio continua endêmica.
Enquanto a poliomielite existir em qualquer lugar do planeta, há o risco de importação da doença. É um vírus perigoso e de alta transmissibilidade, mais transmissível do que o Sars-CoV-2, por exemplo, disse Fernando Verani.
“Estamos com sinal vermelho no Brasil por conta da baixa cobertura vacinal, e é urgente se fazer algo. Não podemos esperar acontecer a tragédia da reintrodução do vírus para tomar providências”, afirmou.

