Eu costumo ver o que chamam de “bancada amazonense” como um elenco de oficce boys de luxo (tradução: meninos de recado), dispostos a fazer tudo o que seu mestre mandar e a repetir as suas falas mais absurdas, mesmo que reflita em prejuízo para o Amazonas. Mais oprimidos do que nós amazonense, mais violentados do que nós, os venezuelanos deram o troco a Hugo Chávez. Cabe a nós amazonenses e brasileiros sustentar com o nosso voto o direito de ter uma voz dissonante no Senado. E tem de ser agora. O amanhã é um tempo que nunca chega.
As lições da Venezuela
Aldisio Filgueiras *
Na madrugada de segunda-feira, 27, o povo venezuelano começou a mostrar a Hugo Chávez que nem mesmo um ditador pode ter tudo o que quer, quando e da maneira que deseja. Foi uma surpresa para o homem especializado em perder todas as oportunidades de ficar calado. As eleições do dia26, domingo, foram as mais concorridas em longos anos. E o eleitor votou contra a maioria que Chávez queria no Congresso. Chávez queria um Congresso que não criasse dificuldades à sua ambição de ser o presidente eterno daquele país. Mas o povo venezuelano disse não e votou com a consciência de que um governo precisa, sim, de uma oposição que lhe corrija as tentações de autoritarismo. O governo que não consegue confrontar com discurso o discurso oposicionista e apela para a violência, como é recorrente no chavismo, não pode ser governo.
Chávez atenta contra a liberdade de expressão, fechando jornais e emissoras de rádio e televisão; atenta contra a livre iniciativa em qualquer área de atividade do país, desde a agricultura à indústria, ao comércio e aos serviços; nada foge ao controle de Hugo Chávez e ao seu socialismo equivocado. No entanto, existe um território em que nenhuma polícia de Estado, nenhuma coerção é possível. É o território da consciência de cada um.
Um país não progride sem confronto de ideias. E esse foi o equívoco de Chávez: cerceou a liberdade física dos cidadãos venezuelanos, pressionou-os, encarcerou-os e provocou uma onda de imigração dos seus melhores talentos. Isto não é socialismo, é fascismo. Nós brasileiros vivemos esses momentos angustiantes, e não faz muito tempo. Quase sufocamos sob a tutela do pensamento único, na ditadura dos anos 1964-1985.
Esse pregão do pensamento único paira, agora, sobre nós brasileiros, insinuante, como se não quisesse nada. Chávez está exportando para os países da América do Sul o seu conceito absurdo de “socialismo do século 21”, que significa perenidade no poder, ideia que ele e Evo Morales, da Bolívia, compraram, sem entender bem o produto, de Fidel Castro. Lula também se entusiasmou com a ideia, babou na gravata. Mas a oposição que encontrou no Senado Nacional cortou-lhe as asas. As asas, não a sua ambição de também se eternizar na Presidência do Brasil.
Essa pavulagem de Lula está explícita em todos os seus discursos como presidente ou como cabo eleitoral de Dilma, que ele criou à sua imagem e semelhança. Ela se reflete diretamente no Amazonas, onde todo o governo federal, numa “ação conjunta” com o governo estadual, tenta impedir a reeleição da mais importante voz amazonense de oposição no Senado, o Artur Neto. Na verdade, a única voz amazonense que se atreveu a ser oposição no Congresso nacional.
Eu costumo ver o que chamam de “bancada amazonense” como um elenco de oficce boys de luxo (tradução: meninos de recado), dispostos a fazer tudo o que seu mestre mandar e a repetir as suas falas mais absurdas, mesmo que reflita em prejuízo para o Amazonas. Mais oprimidos do que nós amazonense, mais violentados do que nós, os venezuelanos deram o troco a Hugo Chávez. Cabe a nós amazonenses e brasileiros sustentar com o nosso voto o direito de ter uma voz dissonante no Senado. E tem de ser agora. O amanhã é um tempo que nunca chega.


