Por Ana Celia Ossame
Aos 107 anos, completados em 25 de julho deste ano, dona Otília Maria de Oliveira integra um seleto grupo de pessoas que aprendeu a dobrar o tempo e nele fazer um passeio mais demorado, esticando dias, meses e anos.
Nascida no ano de 1919, no município de Careiro Castanho, dona Otília pode ostentar o título de ser uma das mais idosas no Amazonas. De acordo com o Censo de 2022 do IBGE, ela é uma das 731 pessoas vivendo no Estado com 100 anos ou mais de idade.
O mesmo Censo de 2022 informa que o município com maior índice de envelhecimento, no Estado, foi Careiro da Várzea (28,7), vizinho ao então Careiro Castanho, atualmente com a denominação de Careiro. O de Japurá foi o município com o menor índice (8,9%) com menor índice.
Os 107 anos de dona Otília, somados no calendário gregoriano, foram comemorados este ano com bolo e a célebre canção de “parabéns pra você”.
Ainda que vivendo num leito, sem conseguir caminhar ou se mover naturalmente, dona Otília participou da celebração demonstrando alegria em ver os familiares e amigos presentes, pessoas que não se cansam de admirar a longevidade dela.

A idosa retribui o carinho e atenção diária recebidos do filho adotivo, Jackson Rita Gonçalves de Oliveira, 60, e da esposa dele, Maria Célia Batista de Oliveira, 58, com afagos e até beijinhos no rosto. Dona Otília conta ainda com uma cuidadora, Patrícia Martins de Melo, 46, a quem demonstra afeto também.
Na história dela, conforme relato de Jackson, não há nada de especial a que se possa atribuir essa longevidade. Otília viveu no então Careiro Castanho, trabalhando na agricultura até o ano de 1954, quando ficou viúva, com quatro filhos nascidos e um na barriga.
A vinda para Manaus foi em busca de outro meio para viver, pois sozinha e com as crianças não teria como fazer isso no interior. Decidiu vender o terreno e algumas cabeças de gado e com o dinheiro comprou um terreno no bairro de Santa Luzia, zona sul em Manaus.

Jackson, que também se diz “filho afetivo” de Otília, na verdade é sobrinho dela, mas desde criança passou a ser criado por ela, no bairro de Santa Luzia.
Com o olhar sempre atento a ela, revela o desejo de descobrir se a mãe é a pessoa mais idosa viva no Amazonas. O Portal do Holanda pediu essa informação do IBGE, mas por conta do sigilo das informações colhidas no Censo, não foi possível confirmar. Nem a Secretaria de Estado da Pessoa Idosa e nem a de Justiça e Cidadania dispõem dessa informação.
Exibindo alguns documentos dela como Carteira de Identidade, CPF e Carteira de Trabalho, Jackson e Célia fazem buscas nos órgãos estaduais e federais, pois querem confirmar se Otília seria a pessoa com mais idade vivendo no Estado.
Jackson lembra que dona Otília cuidava dele desde pequenininho. “As minhas irmãs de criação, no caso filhas dela, foram pegando amor por mim e a partir de cerca de dois anos de idade, ela me assumiu de vez, dizendo pra minha mãe e pro meu pai que eu não ia voltar mais pra minha casa”, relata ele, que por várias vezes foi procurado pelo pai para voltar, mas sempre recusou. Da casa dela só saiu em 1988, para casar-se com Célia.

Sem oportunidade de estudar, dona Otília praticamente só assinava o nome, mas trabalhou por muitos anos na Maternidade Balbina Mestrinho e também no Hospital infantil Dr. Fajardo, na área de serviços gerais onde conseguiu se aposentar.
De casa para o trabalho e vice-versa, foram muitos anos nesse trajeto. “Eu estudava no Centro e ia junto com ela, que às vezes me carregava no colo porque eu cansava de andar”, lembra o filho. Por meio de um grupo de apoio, eles conseguem parte da alimentação parental e as fraldas, nem sempre disponíveis no serviço social do Estado.
Generosa
Além de Jackson, outras pessoas foram criadas pela dona Otília, que sempre agiu com generosidade e viveu de portas abertas para ajudar quem necessitava.
Após casado, Jackson e Célia sempre acompanharam a vida dela e quando em 2024, Célia, sem ter combinado com o marido, falou para cunhada, que já estava doente e vivia com Otília, que as duas podiam morar juntas com o casal e assim se fez. Depois, a cunhada veio a falecer.

Dos filhos que teve, Otília tem uma filha viva, de 74 anos e os dois filhos tidos por ela vivos, além de outro adotivo que foi registrado. Eles não se sabem o destino do filho dela, que deve ter cerca de 79 anos. A filha viva tem problemas de saúde e não pode cuidar da mãe. Por isso, o casal aceitou a responsabilidade de fazer o que entende ser uma “tarefa de Deus” e retribuir o amor dado por Otília a Jackson.
O casal também agradece o trabalho dedicado das cuidadoras, como Patrícia, que contribui para o maior conforto de Otília.
A idosa só recebe alimentação parenteral (por sonda) e como resultado da falência do pulmão direito, respira com auxílio de ventilação mecânica, o que exige sempre muita atenção. De vez em quando, incomoda-se com a sonda, mas na maior parte do tempo, permanece com o equipamento.
Pelo fato de Otília viver acamada, tem que permanecer em ambiente com ar-condicionado e, de tempo em tempo, ser mudada de posição no leito.
Além do problema no pulmão direito, que entrou em falência após a Covid, ela não tem outra comorbidade mais grave como pressão alta ou diabetes, comuns em pessoas idosas.
Se sente alguma dor é capaz de indicar, mas de vez em quando emociona Jackson e Célia com gestos de afeto para os dois e também para a cuidadora.

“Quando interage com algumas visitas, como nossos filhos ela diz que estão bonitos”, revela, que não sabe a que atribuir essa longevidade. “Minha mãe foi uma mulher que trabalhava desde sempre na roça, cortando juta, dentro d’água. Era um trabalho insalubres, o que justifica as dores que sentia no joelho”, diz ele.
Para o sustento de Otília, a aposentaria dela, no valor de um salário mínimo, não é suficiente para manter a estrutura disponibilizada para sua vida.
Quando há disponibilidade, a alimentação parenteral, que tem custo alto nas farmácias, é obtida na Central de Medicamentos, assim como fraldas. Segundo Jackson, quando falta na Central é possível contar com solidariedade de outros usuários, que compartilham dos familiares ou eles mesmo compram.

O casal se reveza nos cuidados dela, acompanhando em cada período do dia, quando está na cama ou na cadeira de rodas, onde é colocada para pegar sol de manhã. “Às vezes ela dorme bem e em outras, fica agoniada e não conseguimos dormir também”, afirma Jackson, que já perdeu as contas de quantas noite passou acordado, junto à mãe.
No aniversário de 107 anos de dona Otília, pessoas de várias gerações reunidas celebraram e cantaram a longevidade dela, que na simplicidade da vida, ensina que a finitude do tempo de um ser humano na Terra não depende apenas dos dias de um calendário, mas do amor e do cuidado que recebe de quem os ama.




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