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HUGV, história de luta pela formação de médicos no AM

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HUGV, história de luta pela formação de médicos no AM
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Por Ana Célia Ossame, especial para o Portal do Holanda

Com uma média de 120 mil pessoas da Amazônia Ocidental atendidas anualmente, nos serviços de ambulatório até a mais complexa cirurgia neurológica, o Hospital Universitário Getulio Vargas (HUGV) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a reitora Márcia Perales   inaugurou na sexta-feira, 25, um prédio com 13 pavimentos, cuja infraestrutura permitirá a médio e longo prazos dobrar e otimizar o volume de atendimento.

Em 52 anos de fundação, escreveu e foi palco de uma história voltada para a formação de bons médicos responsáveis por uma atendimento diferenciadona rede pública, seja porque oferce procedimentos especializados, seja porque sempre busca atender a pessoa que busca socorro médico.

Criado na década de 60 do século passado pelo Governo do Estado, o hospital foi ocupado, literalmente, na década de 80, pelos estudantes da Faculdade de Medicina da Ufam, àquela época Universidade do Amazonas (UA), cuja história, o primeiro diretor eleito pela instituição de ensino, médico e professor Marcus Barros, 68, conta com alegria e incontido orgulho.

“Era início da década de 80, período de exceção política, quando aconteceu um fato, que é um marco na história da Ufam. Os estudantes do 6º ano de Medicina, não mais aguentando as péssimas condições de ensino e aprendizado em um hospital que não era da universidade, entraram em greve e a pauta era melhorar o ensino”, contou ele. E a solução apresentada para que isso acontecesse foi que o hospital passasse para a Ufam.

A ideia foi dos estudantes e, segundo Marcus Barros, ele estava pesquisador do Hospital Tropical e foi indicado pelos grevistas para assumir o Getulio Vargas, proposta que o deixou em conflito interno, mas com o resultado da votação que o elegeu, não teve dúvidas. Apresentou-se ao então diretor, médico Adriano Marques, juntamente com a comissão eleitoral, recebendo a mesa, cadeira e sala, e mais, uma instituição em crise financeira aguda.

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À época, o Getulio Vargas era o único pronto socorro da cidade e Marcus, que é infectologista,foi à reitoria comunicar os acontecimentos e os estudantes foram para a rua atrás de lençol e dinheiro para comprar remédios, explicou Barros.

Uma cena não se apaga da memória. Quando entrou no centro cirúrgico, tinha infiltração de dentro da sala superior que era contida com uma bacia. “Cerca de 66% dos pacientes eletivos se infectavam depois das cirurgias, mas eu e médicos como Jesus Pinheiro e Silas Guedes, começamos a limpeza”. Na época, voltaram para o hospital  quatro formados em Administração Hospitalar.

Havia, inclusive, uma senhora que tinha efizema pulmonar e por ser paciente crônica, estava há dois anos lá e foi tão deixada de lado sem assistência médica devida, que levou um fogão e na enfermaria fazia café e bolinho para vender.

O diretor foi a Brasília e conseguiu junto ao então presidente João Batista Figueiredo, a liberação de 500 vagas para concurso público, uniformizando os salários dos dois grupos de servidores da universidade e do governo.

“Dissemos que tínhamos que trazer os professores para o hospital e trouxemos o Departamento de Medicina Especializada para lá”, lembra Marcus, relatando a dificuldade para administrar o único pronto socorro da cidade, cuja demanda era crescente. “Eu e vários médicos tínhamos conta em nossos nomes na farmácia da esquina, onde comprávamos medicamentos para pagar no final do mês”, disse ele.

O amor e o trabalho dos professores foi crescendo ao ponto do Hospital Getulio Vargas tornar-se referência em ortopodia e neurocirurgia.

Então, surgiu a ideia de trabalhar para que a unidade de ensino e saúde passasse para a universidade. “Fomos ao governador José Lindoso, depois a Paulo Nery e o deputado Wilson Seffair fez um projeto cedendo um aluguel sem ônus, do hospital para a universidade.

“Em ato contínuo, o hospital passou, do bisturi à ambulância, para a universidade”, explicou Marcus, o que o inseriu no orçamento do Ministério da Educação (MEC).

Várias autoridades foram tratadas na instituição, que tinha uma área destinada a atender ao governador. Logo que chegamos, fizemos uma placa cuja frase se tornou simbólica e lema do hospital:”Aqui se atende a todos, sem nenhuma distinção”.

Foi criada uma Comissão de Controle de Infecção Hospitalar que se tornou a primeira no país, depois da morte do presidente eleito Tancredo Neves. “Foi uma conquista que fez diminuir de 66% para 6% a infecção hospitalar”, disse.

NOVA ELEIÇÃO

Após três anos de administração, em pleno período da ditadura militar, Marcus propôs ao reitor da época nova eleição para a diretoria do hospital, o que foi recusado, mas após carta de renúncia dele, foi instaurada nova eleição, sendo eleito Silas Guedes com quase 100% dos votos.

Das muitas crises por falta de recursos, Marcus gosta de citar que o hospital era referência a ponto de se tornar berçário de instituições como a Fundação Hemoam, iniciado numa sala do hospital, com os médicos e professores Nélson Fraiji e Leny Passos, da Fundação Centro de Oncologia, com o médico Mário Sahdo, e da Fundação de Medicina Tropical, nascida numa enfermaria daquela unidade.

Houve debate para se decidir se mudava o nome de Getulio Vargas, cujo governo foi ditatorial. Houve a proposta de colocar o nome de Djalma Batista, mas não houve aceitação e Marcus propôs que chamasse Hospital Universitário Getulio Vargas.

Para Marcus, a história do HUGV refere-se a professores e estudantes guerreiros, que conquistaram o direito de ter uma formação digna para gerações em nível de graduação, pós-graduação e constituir-se parte importante do Sistema Único de Saúde (SUS) na assistência à população regional.

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