Por Ana Celia Ossame, especial para Portal do Holanda
Com 78,9% das internações por Covid-19 na Região Norte, os hospitais públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) foram os grandes destaques nos dois períodos críticos da pandemia tanto em número de atendimentos quanto de registro de óbitos. Os resultados indicam mortalidades mais elevadas no Norte e Nordeste e mais baixas no Sul e Centro-Oeste em comparação com o Sudeste. Em relação ao período pandêmico, as ondas tendem a apresentar maior mortalidade de pacientes internados.
Os dados estão no artigo denominado “Mortalidade hospitalar por covid-19 no Brasil de 2020 a 2022: um estudo transversal baseado em dados secundários, assinado pelas pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) Margareth Portela, Mônica Martins, Sheyla Lemos, Carla Andrade e Claudia Pereira, publicado na Revista Internacional para Equidade em Saúde “ Covid-19 inpatient mortality in Brazil from 2020 to 2022: a cross-sectional overview study based on secondary data ”.
Em toda a região, foram mais de 51,8 mil mortes. No Amazonas, 16.484 pessoas morreram por Covid-19 desde o início da pandemia, de acordo com dados oficiais da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), além de acometer mais de 638.5 mil pessoas. No boletim fornecido pelo órgão atualizado ontem (20), haviam 24 novos casos confirmados e 22 pessoas em isolamento domiciliar.
A falta de insumos básicos para atender as vítimas da pandemia em 2021, como os respiradores, causou várias mortes por falta de oxigênio e levou o Estado do Amazonas a ser alvo de manchetes na imprensa nacional durante períodos críticos da pandemia.
As pesquisadoras destacaram que os achados demonstram a importância fundamental do SUS na prestação de cuidados de saúde, uma vez que a maior parte das internações por covid-19 foram cobertas pelo sistema público de saúde brasileiro. Mas também indicam fragilidades no desempenho das unidades hospitalares do SUS, em comparação com o setor privado ou mesmo, em algumas regiões, com as unidades hospitalares públicas não prestadoras de serviço para o SUS, refletindo problemas estruturais e de financiamento acumulados.
O SUS atendeu as populações mais vulneráveis, no entanto, apresentou pior mortalidade hospitalar. Já os hospitais privados e filantrópicos não pertencentes ao SUS, em sua maioria reembolsados por planos privados de saúde acessíveis às classes socioeconômicas mais privilegiadas, apresentaram os melhores resultados.
Dados do Portal da Transparência do Governo do Estado atualizados no último dia 13, mostram o registro de 638.551 mil casos de Covid no Estado e 14.584 mil óbitos. A saúde do Amazonas foi manchete da imprensa nacional pela falta de assistência aos pacientes com leitos e respiradores suficientes para a demanda.
O levantamento, feito com base nos dados do SUS, entre as macrorregiões do Brasil, apontou que o Norte apresentou o pior desempenho, enquanto o Sul teve o melhor desempenho no atendimento dos pacientes. A região Centro-Oeste também foi associada à redução nas chances de mortalidade em relação ao Sudeste, categoria de referência, enquanto Nordeste e Sudeste não se diferenciaram estatisticamente.
Entre os hospitais do grupo privado do SUS, que vai desde aqueles com número limitado de leitos disponíveis para pacientes do SUS até aqueles que abrangem a totalidade, estão 15 hospitais públicos de ensino, entre eles 13 administrados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH).
Com exceção do Norte, em relação ao desempenho hospitalar medido em termos de mortalidade bruta de pacientes internados por Covid-19, os hospitais filantrópicos e privados não SUS apresentaram os melhores resultados do país, aponta o estudo.
Indígenas
Mesmo sem ter dados completos de raça/cor e nível de escolaridade, o estudo sugere uma maior concentração de negros, indígenas e pacientes de menor escolaridade nos hospitais públicos do SUS, enquanto as proporções de brancos maiores nos hospitais filantrópicos não SUS e nos hospitais filantrópicos do SUS, neste caso possivelmente refletindo a alta participação destes no Sul do Brasil.
Os pacientes com ensino superior foram mais frequentes nos hospitais privados e filantrópicos não SUS. Os hospitais públicos não SUS, em sua maioria militares, apresentaram maiores proporções de pacientes do sexo masculino e mais idosos.
Entre os fatores anotados como importantes por serem constantes, está o de que as chances de mortalidade hospitalar por Covid-19 ter sido menor para pacientes residentes em cidades com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e não apresentaram um padrão comum claro relacionado ao aumento do tamanho dos municípios.
Em todo o Brasil, nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, as chances de mortalidade hospitalar foram estatisticamente maiores para pacientes internados fora do município de residência.
A dinâmica da pandemia no Brasil, de acordo com o estudo, indicou as maiores chances ajustadas de mortalidade hospitalar entre março e abril de 2021 no país e nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
Enquanto a região Norte foi mais afetada durante a primeira fase da primeira onda, especialmente entre abril e maio de 2020, e na segunda onda, de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021.
Mesmo com cerca de 70% das internações entre fevereiro de 2020 e dezembro de 2022 por Covid-19 no sistema público do Brasil, as análises sugerem fragilidades no desempenho das unidades de internação do SUS em comparação com o setor privado ou mesmo o não -Unidades de internação públicas do SUS, refletindo problemas estruturais e de financiamento acumulados.

