Por Ana Celia Ossame, especial para Portal do Holanda
O crescimento do número de motocicletas registradas na frota de veículos do Amazonas, que chega a ser de 40% no estado e 31,4% na capital, é resultado da baixa qualidade do transporte público e vem acompanhado de outro índice preocupante: o de acidentes com mortes.
Nos últimos 15 anos, houve um aumento de mais de 900% do índice de acidentes e de 950% dos números de vítimas fatais, principalmente de jovens, afirma o engenheiro civil Manuel Paiva, especialista em planejamento e operações de transporte coletivo, ao comentar os dados divulgados hoje pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), de que uma em cada três cidades brasileiras tem maior registro de motos que de carros.
No Amazonas, várias cidades estão entre as do país que têm maior proporção de motos como Nhamundá (94,7%), Tonantins (94,3%), Maraã (93,9%), Fonte Boa (93,7%), Barreirinha (93,2%), Uarini (93%), Jutaí (92,6%) e Santo Antônio do Içá (92,6%) lideram as localidades com maiores proporções de motocicletas no país que tem 1.903 cidades onde a moto é o veículo mais registrado.
No Estado, são 615.598 automóveis, o equivalente a 53% e 472.499, equivalente a 40,0% motocicletas, enquanto em Manaus, são 570.830 veículos (61,3%) e 294.084 motocicletas (31,4%)
O mais grave, segundo Paiva, é que essas estatísticas no interior do Amazonas não têm dados confiáveis quanto ao registro do número de acidentes e vítimas em rodovias como a AM-070 ou na AM-010.
Para ele, a baixa qualidade do sistema de transporte urbano na capital e a inexistência desse serviço em todas as demais cidades do interior, respondem pela alta migração da população para as motocicletas.
Segundo Paiva, que já dirigiu o órgão municipal de transporte urbano, o sistema de transporte público perdeu pelo menos 30% de passageiros durante a pandemia, número que não retornou, principalmente porque as pessoas preferiram comprar motos ou aderir ao transporte por aplicativos.
Ao apontar o que chama de distorção na composição da frota de veículos de Manaus e da região metropolitana, cuja frota de motocicletas registrada em Manaus é de 33%, enquanto a de automóveis é 52% e apenas 2% são de ônibus do transporte urbano e fretamento, além do transporte especial e escolar, o engenheiro chama a atenção para os efeitos desse cenário.
Além disso, o crescimento dos serviços de entrega de mercadorias e alimentos também fomentaram esse aumento de aquisição de motos.
Ao comparar a quantidade de ônibus da frota em circulação em Manaus, de cerca de mil coletivos com os 2 mil ônibus a serviço dos cerca de 100 mil trabalhadores do Distrito Industrial, Paiva acredita que poderia haver uma contrapartida das empresas na melhoria do transporte público. “A população se defende da maneira como pode”, diz ele, citando a importância de se ter um transporte público com segurança, fluidez, desempenho, conforto e confiabilidade capaz de atrair o usuário para o serviço.
“O transporte individual é prejudicial para a cidade que precisa melhorar esses itens”, afirma ele, lamentando não ver o pedestre ser priorizado no trânsito de Manaus, pois a cada dia diminuem as calçadas e nem mesmo as faixas de pedestres têm o devido funcionamento assegurado.
No interior do Amazonas, as prefeituras não se organizaram para ter um transporte coletivo, isso fez com que o serviço de motocicleta fosse predominante, tornando o Amazonas um estado cujas cidades são de duas rodas e as consequências disso nos últimos 15 anos, é o aumento do número de acidentes e vítimas.
Ao lembrar que Manaus já teve 40 quilômetros de faixas exclusivas para o transporte coletivo e a importância cada vez maior de se priorizar o transporte público, com fiscalização e informação, Manuel Paiva garante que só com essa decisão será possível resgatar os usuários perdidos e dar a Manaus o direito de trânsito mais humano e seguro para todos.

