Dona Júlia se aposentou faz pouco tempo. Ela passou 30 anos lecionando. Na mesma escola, na mesma sala, para a mesma série. O que viu nesse período foi o vai-e-vem de rostos que a cada final de ano letivo desapareciam ou se apagavam como estrelas cadentes. Voltava para casa com uma tristeza danada. Um nó, como dizia, no peito. O João, o Raimundo, o Antônio, a Mariazinha iam. E vinham outros, com os mesmos sonhos, que ela acalentava. Como dona Júlia, outras mulheres e homens vivem o magistério como um sacerdócio. Ensinam porque gostam, amam a sala de aula e até se acostumaram com suas precariedades.
Lecionar, para eles, sempre foi uma mistura de prazer e sofrimento. Prazer de manter a chave do conhecimento que abre horizontes e oportunidades para várias gerações. O sofrimento sempre deixaram em casa, para um reencontro ao final do dia: a dificuldade de manter o lar, os filhos, colocar comida na mesa, viver com dignidade.
Nos últimos três anos as coisas mudaram - não na medida que os professores queriam ou sonhavam. Mas os avanços - seja na questão salarial, seja nas condições de trabalho ou na política de qualificação, são notáveis.
O anúncio feito pelo governador Omar Aziz de mudança no Plano de Cargos e Carreiras - que vai permitir a promoção de 17 mil professores da rede estadual - é uma conquista. Dos professores. E sinaliza que os horizontes estão abertos para a rediscussão da educação como uma política de Estado.
Essa conquista se deve, antes, a capacidade de superação dos professores e a um governo disposto a escutá-los. Não é um favor que o governo faz aos professores. Mas a sociedade agradece.
