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Líder da oposição promete processar Evo e fala em 'justiça divina'

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A oposição boliviana pretende levar a julgamento o ex-presidente Evo Morales, que renunciou neste domingo (10), e outros membros de seu governo, anunciou o líder opositor Luis Fernando Camacho.

"Agora nasce uma nova Bolívia, não podemos seguir encobrindo ninguém por amizade. Vamos iniciar processos de responsabilidade ao presidente Evo Morales, ao vice-presidente, a todos os seus ministros, absolutamente a todos, porque eles fizeram parte das mortes", acusou Camacho, em um vídeo divulgado na noite de domingo, segundo o jornal La Razón.

"Comecemos julgamentos aos delinquentes do partido do governo, colocando-os presos. Amanhã [segunda, 11] começamos os processos", disse, assegurando que não se trata de vingança, mas de "justiça divina".

Na manhã desta segunda (11), Evo disse que, além de sua casa, a de sua irmã foi atacada e que houve ameaças de morte a ministros e a seus filhos. "Os golpistas (...) agora mentem e tratam de nos culpar pelo caos e violência que eles provocaram. Bolívia e o mundo são testemunhas do golpe."

Evo agradeceu também ao apoio que recebeu. "Me emocionaram até me fazer chorar."

Na noite de domingo, o agora ex-presidente afirmou, em uma rede social, que um policial disse ter um mandado para prendê-lo. No entanto, o comandante nacional da Polícia, Vladimir Calderón, disse à imprensa local que não há ordens de prisão contra ele e membros do governo.

Após a saída de Evo, a Bolívia vive um vácuo de poder, pois o vice-presidente e os chefes do Senado e da Câmara renunciaram.

Neste cenário, a segunda vice-presidente do Senado, a opositora Jeanine Añez, reivindicou o direito de assumir a presidência, "com o único objetivo de convocar novas eleições".

No entanto, não está previsto na Carta que a sucessão se daria dessa maneira. O governo brasileiro avalia que ainda não está claro se há base legal para reconhecer a legitimidade de Añez e, por isso, não vai se pronunciar, pois aguarda o Tribunal Constitucional da Bolívia se posicionar.

Não está claro qual será o destino de Evo. Ele afirmou que não abandonaria a Bolívia, mas o México ofereceu asilo, anunciou o chanceler Marcelo Ebrard.

Segundo o ministro mexicano, há 20 políticos abrigados na embaixada do país em La Paz. ​Vários deles afirmaram que suas famílias haviam sido ameaçadas. Manifestantes queimaram casas de várias autoridades no país.

No domingo à noite, a praça Murillo de La Paz, onde fica o Palácio Quemado, antiga sede do governo, foi tomada por bolivianos dispostos a celebrar a renúncia de Evo, que governou a Bolívia por quase 14 anos, um recorde nacional de permanência no poder.

Durante a noite foram registrados atos violentos em La Paz e na cidade vizinha de El Alto, protagonizados por pessoas que pareciam seguidores do ex-presidente. Houve incêndios em ônibus municipais e saques nas casas de um líder cívico e de uma jornalista, de acordo com denúncias dos afetados.



A QUEDA DE EVO

Os resultados de uma auditoria da OEA (Organização dos Estados Americanos) divulgados no domingo, que apontavam "sérias irregularidades" nas eleições de 20 de outubro, desencadearam os acontecimentos que levaram à renúncia de Evo.

Durante a manhã, ao tomar conhecimento do relatório, o então presidente anunciou novas eleições, mas a notícia não foi suficiente para conter a ira da oposição.

Evo enfrentou durante o domingo uma avalanche de renúncias de altos funcionários, em alguns casos depois de terem tido suas casas incendiadas, e a pressão decisiva dos militares e da polícia, que pediram sua saída do cargo.

"Pedimos ao presidente de Estado que renuncie a seu mandato presidencial e permita a pacificação e a manutenção da estabilidade, pelo bem de nossa Bolívia", disse o comandante em chefe das Forças Armadas, o general Williams Kaliman.

Após o pronunciamento de Evo, a polícia prendeu a presidente do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), María Eugenia Choque, e outros funcionários do organismo por ordem do Ministério Público, que investiga irregularidades cometidas nas eleições.

Nesta segunda-feira, o governo da Rússia, aliado de Evo, afirmou que as ações violentas da oposição forçaram sua saída e que a situação "lembra um golpe de Estado".

A diretora da RT, TV russa apoiada pelo Kremlin, convidou Evo a ser apresentador do canal em espanhol da emissora. O ex-presidente do Equador, Rafael Correa. apresenta há um ano um programa de entrevistas políticas no mesmo canal.

A chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediram moderação e novas eleições.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ironizou a renúncia e voltou a usar a expressão "grande dia", seguida de um sinal de joinha, em mensagem nas redes sociais.

O chanceler do Brasil, Ernesto Araújo, disse que não se trata de um golpe. "A tentativa de fraude eleitoral maciça deslegitimou Evo Morales, que teve a atitude correta de renunciar diante do clamor popular. Brasil apoiará transição democrática e constitucional. Narrativa de golpe só serve para incitar violência", publicou em uma rede social.

Cuba, Venezuela e Nicarágua, os principais aliados ideológicos de Evo na América Latina, denunciaram o que consideram ter sido um "golpe de Estado". A mesma crítica foi feita pelo presidente eleito argentino, Alberto Fernández, e pelo ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.​



A TENSÃO POLÍTICA NA BOLÍVIA, DIA A DIA

20.out

Bolivianos vão às urnas para 1º turno das eleições presidenciais; resultados parciais indicam a realização de um 2º turno

21.out

Tribunal eleitoral aponta vitória de Evo após contagem ser interrompida e um novo método de apuração ser usado; opositor Carlos Mesa não reconhece a nova contagem e manifestantes saem às ruas

22.out

Governo pede auditoria externa da eleição à Organização dos Estados Americanos (OEA); grande protesto toma as principais ruas de La Paz

24.out

Saem os resultados oficiais, que confirmam vitória de Evo no 1º turno; Brasil, Argentina, União Europeia e EUA não reconhecem e pedem nova votação

30.out

Começa auditoria da OEA, com técnicos estrangeiros e resultado vinculante; acontecem as duas primeiras mortes de manifestantes em confrontos

3.nov

Tensão política aumenta quando um líder dos protestos, Luis Fernando Camacho, pede intervenção dos militares contra Evo, em tom de ultimato

5.nov

Camacho é barrado em aeroporto de La Paz ao tentar entregar a Evo uma carta pré-escrita de renúncia

8.nov

Alguns policiais se rebelam contra o governo e anunciam que não vão mais reprimir manifestantes

10.nov

Após semanas de protestos ininterruptos, OEA adianta entrega de auditoria e pede a anulação das eleições de outubro; Evo Morales cede, anuncia novo pleito e é instado pelas Forças Armadas a renunciar



PRÓXIMOS PASSOS

Quem assume o governo?

Se vice-presidente e presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados não puderem assumir o cargo após a saída do presidente, que é o caso pois todos renunciaram, a Constituição boliviana não deixa claro quem assumiria.



Quando devem ser as novas eleições?

Antes de renunciar, Evo disse que realizaria novas eleições após auditoria da OEA (Organização dos Estados Americanos) indicar anulação dos resultados. A Constituição do país estabelece que, no caso de vice-presidente e presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados não poderem assumir, um novo pleito deve ser realizado em até 90 dias.



Quem pode concorrer?

Carlos Mesa, opositor de Evo que contestou o resultado, é possível concorrente. Na manhã deste domingo, antes de renunciar, Evo disse não saber se participaria do pleito novamente. Para concorrer em outubro, ele já havia recorrido à manobra jurídica, pois uma quarta reeleição vai de encontro ao estabelecido na Constituição do país.

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