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Unificação da Alemanha expôs fraqueza do leste no futebol

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há uma anedota na Alemanha em que conta um repórter perguntou a um técnico de um time oriental por que não havia jogadores altos em clubes de futebol do leste. Porque eles são todos remadores, respondeu o treinador.

O exemplo ilustra como o futebol estava em segundo plano na antiga República Democrática Alemã, que preferiu o caminho dos esportes olímpicos como forma de afirmar sua identidade nacional.

Trinta anos após a queda do Muro de Berlim, cujo aniversário é celebrado neste sábado (9), o futebol alemão escancara a disparidade entre os clubes do oeste, ampla maioria na Bundesliga, e os do leste, que nessas três décadas apresentam dificuldade de se consolidar na elite nacional.

Com duas equipes com sede no leste da Alemanha, o Campeonato Alemão repete nesta temporada o que só aconteceu outras cinco vezes desde a queda do Muro.

Mas entre Union Berlin e RB Leipzig, só o primeiro viveu o socialismo enquanto o segundo carrega consigo a marca de uma das mais bem sucedidas empresas do capitalismo, a Red Bull, companhia austríaca de bebidas energéticas.

"A única coisa que o RB Leipzig tem em comum com o Lokomotive Leipzig ou com o antigo VfB Leipzig é o nome da cidade. A Red Bull não comprou nem o Lokomotive nem o VfB que, por sinal, nem existe mais", conta o alemão Gerd Wenzel, jornalista dos canais ESPN e do Deutsche Welle.

O clube foi fundado em 2009 e teve ascensão rápida patrocinada pela empresa. Na temporada 2016/2017, sua estreia na elite, liderou a competição por algumas rodadas e foi vice-campeão, atrás do Bayern.

Já o Union Berlin, de 1906, estreou na primeira divisão este ano. Dos seis clássicos de Berlim contra o Hertha na história, são três vitórias para os orientais e dois empates.

"Talvez a maior diferença entre os dois é que, enquanto o Hertha é um clube mais tradicional, o Union faz do engajamento social uma de suas marcas", completa Wenzel.

Desde sua unificação, o Alemão mostrou a força do oeste. Após a queda do muro, foi realizada uma última edição da Oberliga, a liga oriental --os dois primeiros entrariam na primeira divisão, os seis seguintes na segunda e o restante iria para ligas regionais.

A disparidade econômica, que perdura até hoje, o colapso do sistema de patrocínio estatal e a falta de preparo para o futebol capitalista foram fatais para o leste.

Some-se a isso a quebra de empresas locais e a dificuldade de atrair patrocinadores do oeste (que não queriam ver sua marca associada aos resquícios do antigo regime) e o resultado foi uma crise financeira nos clubes, que viram um êxodo de jogadores.

"No futebol, como em outras áreas, a unificação foi mais uma anexação que um acordo igualitário", explica Alan McDougall, professor de história na Universidade de Guelph, no Canadá, e autor do livro "The People's Game: football, State and Society in East Germany" (O Jogo do Povo: futebol, Estado e Sociedade na Alemanha Oriental).

O Hansa Rostock é o caso de maior sucesso oriental na Bundesliga, com 11 aparições na primeira divisão --10 seguidas (1995- 2005) e uma no primeiro ano do torneio unificado. Foi sexto colocado nas temporadas 1995-96 e 1997-98.

Com patrocinadores locais, o clube mantém bom trabalho de base, o que salvou o clube, campeão alemão sub-19 pela última vez em 2010.

O insucesso dos clubes da antiga Alemanha Oriental, no entanto, não se resume à questão econômica. Mais valia investir em esportes olímpicos para o Estado socialista.

"Os esportes olímpicos se tornaram, junto com o Muro de Berlim e a Stasi [polícia secreta do país], uma das identidades da Alemanha Oriental", conta McDougall.

A relação da Stasi com o futebol, inclusive, pode explicar a série de dez títulos seguidos do Berliner FC Dynamo, patrocinado pela polícia secreta, da Oberliga.

Segundo McDougall, historiadores nunca encontraram evidência concreta da participação da Stasi, mas ele diz que a equipe criou uma imagem antipática com os torcedores de outros times por suposto favorecimento dos árbitros.

"A reclamação mais comum era a de que o Berliner Dynamo corrompia os árbitros. Argumento no livro que a campanha anti-Berliner Dynamo foi o maior 'movimento de protesto' na Alemanha Oriental na década de 1980, maior que o contra a Igreja e que o ativismo ambiental", analisa.

Socialismo e capitalismo chegaram a se enfrentar em campo em uma Copa do Mundo. Foi em 1974, e o jogo aconteceu em Hamburgo.

O favoritismo estava do lado ocidental, mas quem venceu foi o oriental, por 1 a 0, gol do meia Jürgen Sparwasser. O triunfo rendeu aos socialistas o primeiro lugar do Grupo 1, ultrapassando os adversários.

Contudo, na fase seguinte, a Alemanha Oriental foi eliminada em um grupo que tinha Brasil, Argentina e a Holanda de Cruyff, que fez a final contra a Alemanha Ocidental.

"[Os alemães socialistas] ficaram felizes que a Oriental venceu [a partida], mas ficaram igualmente felizes que a Ocidental venceu a final. A partida do 'nós contra nós' [como ficou apelidado o duelo] mostra algumas das complexidades da identidade nacional", diz McDougall.

A soberania do oeste sobre o leste pós-queda do Muro fica clara também se olhamos para a seleção alemã atual.

O time campeão em 2014 tinha só um jogador nascido na parte oriental. Toni Kroos, meia do Real Madrid, é também o único representante da região nas últimas três Copas.

No Mundial de 2006, na Alemanha, foram quatro, inclusive o capitão Michael Ballack. Na de 2002, foram sete.

"A população da região leste é de aproximadamente 13 milhões e representa 15% de todo o país. Se for aplicado esse percentual aos jogadores da seleção, conclui-se que o lado oriental está sub representado", pontua Wenzel.

O jornalista diz ser difícil explicar o desaparecimento recente de bons jogadores da região. Ele cita Berti Vogts, campeão do mundo em 1974 e que já disse não ter "a mínima ideia de por que não surgem jogadores selecionáveis nessa parte [do país]".

Mesmo o RB Leipzig, criado na parte oriental, tem 2 dos 32 atletas de seu elenco nascidos na parte leste. "Talvez a ascensão do Union Berlin na Bundesliga possa ajudar a mudar um pouco essa história, mas os polos principais seguirão no oeste", finaliza McDougall.

DOPING NA ALEMANHA ORIENTAL

A República Democrática Alemã disputou cinco Olimpíadas entre 1968 e 1988. Nesse período, só não participou de Los Angeles-1984, por causa do boicote do bloco comunista.

Com grande investimento, os alemães do leste tiveram resultados expressivos.

Em Montréal-1976, foram 90 medalhas no total. Pelo critério de classificação olímpica, cujo ordenamento é definido pelas medalhas de ouro, ficou à frente dos EUA (40 contra 34) e atrás apenas da então União Soviética (49).

Em Moscou-1980, sem os EUA que boicotaram o evento, faturou 126 medalhas. Somando todas as participações do país, a Alemanha Oriental subiu ao pódio 384 vezes.

O período ficou marcado por casos de doping que seriam revelados após a queda do Muro de Berlim, com atletas relatando a ingestão de substâncias que, no futuro, lhes causariam problemas.

Caso emblemático é o de Andreas Krieger, do arremesso de peso. Na época, antes da cirurgia da troca de sexo, ele se chamava Heidi, e consumia diariamente pílulas azuis fornecidas pelo Estado, achando que se tratavam de vitaminas. Eram esteroides anabólicos, utilizados para aumentar força e potência dos músculos.

Em 1997, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Krieger disse que fazia a barba três vezes por dia como consequência dos vários anos ingerindo a substância.

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