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Avanço de inteligência artificial pode causar perigo, aponta especialista

Foto: Reprodução

A internet, que nasceu com a promessa de democratizar as relações de criação de conteúdo e consumo, foi capturada por um número restrito de gigantes - como Google, Microsoft e mesmo Uber e Airbnb - que avançam agendas potencialmente perigosas como a inteligências artificial, disse Ricardo Abramovay, professor da FEA-USP e estudioso da economia compartilhada. Para o especialista, a IA é um problema tão sério quanto o aquecimento global, com o agravante de não haver nenhum órgão global que o esteja debatendo.

— Todas essas empresas de internet estão preparando a chegada da inteligência artificial, e isso vai ser muito rápido. Isso pode ser tão perigoso quanto as mudanças climáticas. No caso delas, porém, há pelo menos uma organização internacional que está olhando isso. No da IA, é cada um por si. O perigo que temos diante disso é imenso, e não se trata apenas de uma questão de governo. Deve ir muito além, após palestra na primeira edição do Fórum do Amanhã, que reuniu intelectuais e especialistas até este sábado em Tiradentes (MG) para discutir o futuro do desenvolvimento brasileiro.

Abramovay, autor de “Muito além da economia verde”, disse que concorda com Gerd Leonhard, que defendeu no livro “Technology vs Humanity” a formação de um conselho global de ética digital para tratar da inteligência artificial. O objetivo é afastar a sujeição dos seres humanos a um conjunto de proposições originárias nas máquinas nas quais não terão qualquer controle. A ideia reforça as posições de influenciadores como o empresário Elon Musk (fundador da Tesla e da SpaceX) e o físico Stephen Hawking.

O filósofo e economista brasileiro chamou a atenção para o impacto da IA no emprego. Ele citou estudo da Oxford Martin School, segundo o qual 47% dos empregos nos EUA estão ameaçados de desaparecer por causa da IA. Na China, o número sobe para 65%. Abramovay observou que essa transição impõe a necessidade de uma discussão sobre as desigualdades que vai além das propostas tradicionais. Para ele, em uma sociedade com escassez de trabalho, a criação de uma renda mínima é uma possibilidade. Na Suíça, que promoveu referendo sobre isso este ano (os eleitores rejeitaram a proposta), um dos argumentos era justamente como o avanço da tecnologia colocava o trabalho em risco.

A concentração de poder nas companhias de tecnologia também capturou e está desvirtuando o conceito de economia colaborativa. Segundo o argumento de Abramovay, sistemas como o Uber são poderes transnacionais que acabam violando o tecido social local. Ele citou o exemplo do Airbnb, afirmando que o site tem sido um vetor de destruição dos centros históricos", estimulando a desocupação de centros urbanos em favor da exploração hoteleira das residências.

Segundo ele, dois passos que não resolvem por completo o problema mas são um início necessário são: o fortalecimento do viés realmente descentralizador das tecnologias e a criação do que ele chamou de "dispositivos participativos" para exercer pressão sobre as opções tecnológicas feita pelas gigantes da internet.

Fonte: O Globo.